A socialite Tania em saison de compras. Paris. Talvez socialite e saison sejam contextualizadas diferentem/ pela radical utilidade do que ela trouxe de lá. Salve, Tania!
INSTALAÇÃO: PÁGINAS AMARELAS estaráno Sesc Santana de 27 a 29, sexta e sábado às 21h e domingo às 18h - Av. Luiz Dumont Villares 579, tel. 2971 87 00. Show c/ a banda, na programação em louvor a São Paulo, esta cidade dura e de beleza própria, peculiar, que recebe os que querem ganhar a vida, vindos do Brasil inteiro. Situação que, ouvi, desde o governo passado está se transformando. Tomara. Parece que agora as pessoas estão se fixando, pelo trabalho, nos Estados onde moram.
Voltando a INSTALAÇÃO: PÁGINAS AMARELAS. É um show predominantemente urbano - para dizer show paulistano bastam um suspiro e uma figura gramatical. Vamos?
Eu, o destinatário, Tom Zé, já peço a opinião de vocês, leitores.
Bom dia Mestre Tom Zé, primeiro queria dizer que vc é uma grande inspiração, não só pra mim, como para todos da banda, sua ousadia nas composições e melodias, o seu não medo de experimentar, a sua busca incessante pelo "entedimento" da música, tudo isso faz com que a banda Vitrola de 3 seja eternamente grata pelo seu trabalho, pois sem ele não estaríamos criando músicas e mais músicas sem medo de experimentar, e sem medo do que os outros vão achar. Bom como falei no assunto do email, nós somos uma banda do Espírito Santo, e hoje ainda, dps de quase 4 anos de banda, apesar de já termos um som próprio, fazemos shows somente com músicas próprias, e isso praticamente desde o início da banda, trabalhando com poucos covers, ou melhor, com poucas versões de músicas, como com por exemplo a música Vai (menina amanhã de manhã) de sua autoria, algumas músicas do Sérgio Sampaio (que nunca poderia faltar no nosso repertório, afinal somos de Cachoeiro, a saudosa terra dele e de Roberto Carlos e grandes outros nomes da cultura brasileira). Estou enviando esse email mais para fazer uam apresentação da banda para você, pois tenho quase certeza de que vc pode se interessar pelo nosso trabalho, temos pouca coisa na internet, apesar do tempo de banda, em breve gravaremos mais 4 ou 5 músicas nossas e disponibilizaremos o EP para download, enquanto isso temos uma música gravada, com um clipe e diversos vídeos com algumas apresentações ao vivo.
Bom é isso grande mestre, um grande abraço, espero que consiga ouvir, e que goste do nosso trabalho, e se puder dar um parecer sobre o que achou, nos deixaria mais felizes ainda. =)
Nossos repórteres esportivos são imbatíveis. A moda, agora, é dizer que Ganso, por exemplo, deu duas ótimas "assistências" a Neymar, por exemplo. É uma lamentável "tradução literal" do inglês. Em nossa língua, "assistência" não significa "passe", mas ambulância. Então, imagine-se a cena: o jogo é interrompido, para que Ganso atravesse o campo e presenteie Neymar com uma ambulância novinha em folha. Seria o máximo. Mas adaptações e traduções estúpidas não ficam por aí. Volta e meia, em nossos jornais e revistas, encontro a expressão "dramaticamente" usada de modo totalmente disparatado. É que a turma, julgando-se informada, copia direto do inglês. Acontece que, em inglês, "dramatically" significa espetacularmente. Outro dia, num jornal, li que a pobreza, no Brasil, foi reduzida "dramaticamente". O que será mesmo que o sujeito quis dizer com isso?
Este é um texto de Antonio Risério, tenho sempre um prazer especial em trazer um momento de humor. Humor é brilho.
Há alguns anos os tradutores começaram a ser seguidos de perto por críticos-leitores, notando-se que nem sempre os críticos são leitores borgianos. Eram frequentes observações como as de Risério, nem sempre tão inteligentes e bem-humoradas, mas observando as tecnicalidades; as editoras se puseram a cuidar mais da tradução, da língua de chegada. Isso de dizer que há meio século e mais as traduções eram melhores não é verdade. Começaram a melhorar com o acompanhamento crítico.
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Lenha na fogueira: Risério, na mesma fieira de bons textos, diz que as pessoas não escrevem errado porque querem, nem por adotar uma escolha libertária: escrevem errado por exclusão cultural, por opressão. Nessas discussões o perigo é a réplica voltar dizendo: "o pai dele é pedreiro/ a mãe é geóloga/ele tem irmão gêmeo idêntico que mora em Ribas do Monte", deixando o assunto pra lá. E vale a pena discutir o assunto.
Nada termina. Ao contrário do que preconiza o big bang que, segundo certos estudiosos, já conteria o fim deste universo que habitamos. Aprendemos a fazer fronteiras no tempo, por isso Ano Novo, solstícios. Nada termina. A água se divide em gotas, mas o rio segue, os oceanos fluem, por alguns milênios mais. antes de mudar a atual conformação dos mapas dos continentes que conhec emos. Lavoisier.
Na penúltima semana do ano chamei os meninos da banda hoje à tarde - um de 18, outro de 30 e alguns, outro de quase 50, mas meninos: Renato, Felipe e Jarbas. Saí do estúdio, dando um intervalo que era necessário. Nada termina. Minha mulher comemorou há dias a invenção da literatura que a pôs virando páginas de um livro de Colm Tóibín, Brooklin. Diz ela que o destino das pessoas é nossa viagem preferida; e quando um escritor melhor que o usual conta o percurso dos personagens é uma felicidade. Quanto a mim, estou às voltas, de novo, com Joseph Campbell e As máscaras de Deus. Agora, com Mitologia primitiva. Que bem merecia o subtítulo de "No começo, era a crueldade." São cruentos, os mitos inaugurais da raça humana. Para compreender o sexo e a morte, o alimento e a fome, as histórias vão do canibalismo ao assassinato coletivo. A falta de piedade com a dor alheia é velha, meus caros. Olhe, até que melhoramos, sim, como espécie. Enquanto você não perder a capacidade de chocar-se com a brutalidade há um horizonte possível.
Penúltima semana do ano. Não é muito delicado confrontar as luzes que acendem tantas eletricidades noturnas do País com lembranças cruas e primitivas. Tentei não fazer isso, mas essa duplicidade massacre/iluminação se apresentou, não consegui escapar nem não dizer.
Mas sei que enquanto quisermos as luzes, a dimensão da natividade, há um horizonte possível. Lembrando, porém, a grosseria de um horizonte do qual a família do Deus fugia, da matança dos inocentes por Herodes: é preciso encarar morte, grosseria e sangue para preferir outro horizonte?
POMPEIA: A FONTE - NÃO URINE NO CHÃO - Há coincidências neste ofício. Depois de inspirado pelo cartaz que banheiros públicos mostram, depois de feita uma letra alusiva, vi que acabei fazendo companhia a Marcel Duchamp, que chamou de Fonte um urinório público. A letra está lá embaixo, depois do cartaz. Será uma das canções do show de 5a. e 6a. no Sesc Pompeia. Estou animado com as ideias que o show suscita. Abraços.
O cenário traduz a ideia, Humberto Pio põe lenha na m/ fogueira. Vou fazer também Stand clear of the closing doors, que foi parte da semente. Fala do metrô de New York, cidade-irmã de São Paulo, por este show. Henrique Marcusso, o tradutor, estará na plateia. Não urine no chão, aviso antropológico posto em lugares públicos de n/ cidade: já fiz a música. A convivência paulistana, esta tribo, é uma fortuna! Aí embaixo estão os horários.
INSTALAÇÃO - PÁGINAS AMARELAS
Pessoal, Humberto Pio, que fará a cenografia, me avisou que haverá uma chuva de telefones. Eu mais vocês vamos ver de que se trata. O show será INSTALAÇÃO - PÁGINAS AMARELAS,
acompanhado pela banda: Lauro Léllis, bateria; Jarbas Mariz, percussão, cavaquinho, vocal; Cristina Carneiro, teclados e vocal; Felipe Alves, baixo e vocal; Renato Léllis, guitarra e vocal;
Quem é o imbecil que está dizendo que eu fumei Bíblia? Primeiro: não sou analfabeto; amo tanto a Bíblia quanto Thomas Mann, Henrich Zimmer, Joseph Campbell, o próprio James Joyce. Sou inveterado leitor dela, converso sobre ela com amigos, ouço o que os doutores têm a dizer. E divulgo.
Agora: o que eu acredito. Ah! Isso é outra coisa. Veja por exemplo em “José e Seus Irmãos” o capítulo em que Mann palmeja a saga de Abrahão fundando no deserto o Deus que conhecemos, já que esse Deus data de cerca de 4.000 anos antes de Cristo.
Que coisa mais ridícula, essa de fumar Bíblia! Quem anda dizendo que eu fiz isso não viu nem o próprio filme “Filhos de João”, no qual quem trata desse assunto claramente não me inclui e não me cita em seus pronunciamentos.
Que coisa mais ridícula, não gostar da Bíblia! Desrespeitar a literatura religiosa e mítica, desrespeitar a poesia!
Teríamos alguns dias livres depois de Valenciennes – teria sido a oportunidade para ir de trem para Amsterdã e Haia. Impossível. Pegamos algumas horas de estrada rumo ao aeroporto de Bruxelas, na manhã seguinte à do show de Valenciennes. Em 3 horas de voo, Madri, chegando às quase 4 da tarde para passar o som as 5, show naquela noite. Fomos diretamente para o espaço da Red Bull Academy – foi quem levou o show pra lá – e as vagagens não chegavam, embora no aeroporto a motorista madrilenha da van tivesse afirmado: “Trata-se de minha palavra! Em 15 minutos a bagagem estará com vocês!” Dúvidas impressas no nosso rosto. Experiências anteriores aconselham aconselham cautela diante dessas assertividades. E a moça, repetindo: “... e confiem em mim!” Como as roupas de palco viriam todos os pertences e roupas outras, nosso instinto de bicho sobrevivente cansado de viagem precisava olhar prum pijama, mesmo que só fôssemos usá-lo nove horas depois.
Tempo plástico: 15 minutos viram 3 horas
Passagem de som começando, no andar de cima, nós almoçando um sanduíche servido com uma displicência que pode ser ibérica – e foi. E cadê as roupas? (Parêntese, para não criar expectâncias artificiais: as bagagens chegaram às 6, quase 3 horas depois dos 15 minutos prometidos. O que a van andou fazendo por Madri seria tedioso saber. Aceitam-se sugestões bem-humoradas. Enquanto isso, Neusa bronqueava – a conhecida arma do indefeso.)
La sangre
O empresário alemão que nos levou a Madri, ao saber da assertividade da condutora madrilenha, falou, calmo: “Isso é tão espanhol!” É, la sangre corre no sistema venoso do Quijote e na motorista de Madri. É apaixonante você ver la sangre, que impõe tais semelhanças, brotar no comportamento de descendentes do Quijote. Observar baianos, flamengos, holandeses, mostra diferenças étnicas em todos, tão intrigantes quanto as semelhanças.
Halloween na platéia, Brasil no palco
O show foi à... meia-noite? Era noite de Halloween, mais uma invenção americana que tomou conta de Brasis e Espanhas. A maquiagem é um pouco mais acentuada do que algumas pessoas usam em desfile de modas, pode ser até igual, e os jovens põem roupas negras ou de cores intensas. E, no show, tome-lhe música brasileira em cima, com a plateia espanhola aparentemente muito satisfeita com a mistura. Público especialmente entusiasta, participante. É a melhor hora das viagens.
Canaletto, belo; Guernica não
No dia seguinte cedo tentamos ver a obrigatória Guernica, que não vimos em nenhuma das passagens anteriores pela cidade. Museu fechado, por ser 3ª. feira. Fomos ao Thyssen Bornemiza, não ao Prado, ver os Canalettos, há alguns na coleção. Mais uma felicidade veneziana, encontrar um pintor como Canaletto para lhe pintar águas e muros. O funcionário do museu garantiu que os quadros estavam em uma fundação; “com entrada franca”, afirmou ele, colaborativo. Não tinha a mínima ideia de que os canalettos estavam ali, separados de nós pela parede. Belos.
Conferência no Matadouro
No outro dia, também num espaço da Red Bull Academy, enorme, um antigo matadouro, uma entrevista-conferência, três dos músicos da banda acompanhando.O entrevistador tentava fazer ligações pouco prováveis entre ramos da música brasileira e este que fala a vocês. Como tem vinculações com empresa de gravação, provavelmente foi moldado pela convivência com o que conhece. Depois, novas entrevistas a três canais de tv espanhóis. Voltamos pro hotel procurando travesseiro, com pouco ânimo para ir atrás de fruta e suco num supermercado próximo, que pra jantar não tenho natureza, mesmo com tanta atividade. É raro eu aguentar essa refeição noturna.
Os asiáticos se espalham por Madri, pela Bélgica. Nós, no Brasil, ficamos com os japoneses e alguns chineses. Em hotéis, supermercados, ruas, a Ásia está presente.
Só pudemos voltar à Bélgica no dia anterior, que foi livre e era feriado, o voo seria caríssimo. Por isso a conferência colocada um dia depois.
Liberdade na rua
Andamos por Madri e em todas as cidades da turnê, à noite sem contar com uma brutalidade permanente à espreita.
No Brasil perde-se e perdeu-se a liberdade de bater perna, uma das atividades mais saborosas para nós, bípedes. Chegar numa cidade e poder andar sem pavor irrestrito é um acontecimento que os paulistas, cariocas & outros brasileiros vão desconhecendo cada vez mais. Por favor, não valem comentários reproduzindo pronunciamentos fatigantes vistos na tv, rádio ou jornal, e que nunca falam no assunto propriamente. Sempre há alguém de óculos ou terno desexplicando e pessoas encurraladas contando como se deram mal. Que saudade de bater perna!
No dia 27 de outubro, 5ª. feira, show no Vooruit, depois de uma tarde de entrevistas, avisando a uma jornalista simpática que eu não poderia andar por Gent, isso de enquadrar em paisagem entrevistado é para quem não tem o que dizer. A moça vem sempre ao Brasil e, no que faz muito bem, tem saudade de Minas Gerais.
Teatro lotou, público sequioso de ouvir a música, cantando junto. Falam português? Absolutamente, não. Mas o mimetismo sonoro, nesta viagem, mostrou que é um decalque linguístico que funciona muito bem. Ouvi trechos de letra pronunciados como em Salvador, ou em São Paulo, capital ou interior. Um dos produtores do Vooruit era um resolve-tudo esplêndido, nascido para ajudar, que chamo de Gui. Mora com mulher e dois filhos numa casa de 200 anos. Ele e mais um produtor de Antuérpia – falarei dele depois - são pessoas que, se não me engano Borges é quem diz, impedem que o mundo acabe, porque estão nele.
GENT, O MUSEU: BOSCH, O CARTUNISTA
Voltando ao dia anterior, no Museu de Arte de Gent. Em frente, jardinzão de árvores outonais, uma das possibilidades de cor mais belas desta viagem: ouro e vermelho. Eu ia dizer sangue, mas não é vermelho sangue. Não posso desonrar a terra dos pintores flamengos para obter um efeito de retórica. É um vermelho intenso nas folhas, e é um sonho viver o outono manifestando intensidade antes de pelar-se para o inverno.
Há flores pequenas, coladas à grama, brotando das pedras do chão: azuis, roxas, amarelas. O mundo é tão inventivo que querer acabar com ele é uma burrice sem fim. No pasarán, dizem as flores pequenas. A vegetação tomará conta de tudo, é uma explosão permanente. Não dará lugar nem pra nós.
No museu, Bosch, Cristo carregando a cruz, cercado de caricaturas. Bosch e Brueghel são pintores-cartunistas. Nesta pintura Bosch dá relevo à covardia dos perseguidores do Cristo por meio da feiúra e deformando os traços deles. Tive de escolher entre ver os flamengos ou a exposição de Ensor, o expressionista – radicalização do cartunismo. Fiquei com os primorosos. Sabendo que não haveria tempo de ir a Amsterdã e a Haia para olhar Vermeer. Grande pena.
Fui também à catedral ver o retábulo da Adoração do cordeiro de Van Eyck. Tomei um susto ao descobrir que a Adoração mora ali. Os agrupamentos de pessoas no retábulo, a mestria de Van Eyck, sua Nossa Senhora, com um rosto de beleza moderna, parecendo submetido às exigências da atualidade, da maquiagem. Como Nefertiti, ela atravessa os séculos para encontrar certas aspirações à radiância que mostram alguns rostos femininos de hoje. A Virgem Maria de Van Eyck e Nefertiti: duas figuras femininas que saltaram para o século 21. E a rutilância das gemas do manto de Maria, tornando-a rica, falando dos valores de prosperidade da época.
UTRETCH, VADE RETRO AOS MÚSICOS
No dia 28, sexta-feira, fomos para Utretch, show na mesma noite. Chegamos a um hotel com um simulacro de saguão, mínimo, mal couberam nossas malas. O recepcionista-executivo impositivo, negro, lidou conosco como quem já sofreu muitos calotes e temesse os músicos como à peste. Foi preciso a produtora do nosso grupo (Neusa) ligar para a produtora local holandesa para que esta o amansasse. Amansou e o funcionário dispensou o pedido de cartão de crédito para suprir possíveis arrasos brasilo-musicais ao patrimônio hoteleiro da cidade.
À noite, teatro também lotado, show-em-pé, com parte da plateia sentada. Neste havia mais brasileiros, contados dariam uns 20. Os demais, holandeses da gema. Entusiásticos, alegres. Uma brasileira que mora há tempo em Utretch ajudou a vender discos depois do show, apregoando em holandês, parecia o Estado do Rio - de onde ela é - e a rua 25 de março ao mesmo tempo. O fato é que os compradores se multiplicaram com tanto barulho. A pregoeira animada só voltou ao Brasil para a posse da presidente Dilma. Preocupa-se com as notícias que chegam por lá, com o caráter opositor derruba-tudo delas.
Pouco vimos de Utretch. Ficou uma impressão de que a cidade aglomera lojas de departamentos, mac donald’s, feiras. Não vimos centro histórico nem igrejas antigas. Foi uma passagem superficial e rápida. Observação: todos falavam da casa onde cantamos, Rasa, com uma habitualidade de quem diz o nome todos os dias. Todos os teatros onde cantamos mantiveram essa característica de muita interação com os da terra.
VALENCIENNES, FRANÇA
Viagem no dia 29 para show em 30 de outubro em Valenciennes, cidade francesa – precisava dizer, com esse nome?
Ficamos num hotel para onde convergiam as famílias da cidade, pais, filhos e agregados sanguíneos. Na montanha russa da vida artística e suas hospedagens, aqui fomos alimentados como se burgueses fôssemos, num salão de cadeiras de relevos de veludo. Veludos que tais não me impressionam nunca. Sei que um dia é diferente do outro - num dia, quase escorraçado por um porteiro agressivo-temeroso; no outro, alimentado como Hansel e Gretel. Cujo fim, vocês sabem, ora... A alimentação escorreita era diferente, por exemplo, da do dia anterior, em Utretch, onde almocei, se é que posso dizer assim, a comida mais gordurosa de toda a viagem e de todo o ano, num mac donald’s – não havia mais comida em lugar nenhum, às 4 da tarde. Dali a pouco, depois de meio dia de estrada, teríamos o show. Glamur? Nenhum.
Voltando a Valenciennes: a banda tomou, segundo depoimento, o melhor cappuccino da viagem, num café bem movimentado para a hora matutina do domingo frio e de sol claro. Numa das mesas, uma mulher de rosto largo, como o de certos bretões, olhava para a frente sem encarar quem passava diante dela. Desistira de querer ser bonita, jovem ou bem-posta. Olhava para nada, parecendo dirigida por Ruben Mamoulian, que aconselhou a Greta Garbo, no final de Rainha Cristina: “Não pense em nada”. Vou me referir a isso umas duzentas vezes neste blog. A inspiração de Mamoulian ao recomendar essa vacuidade que pode ser preenchida com tudo, pelos nossos olhos, é uma lembrança para a vida toda.
Valenciennes, cidade bem-cuidada, campus universitário impecável, cidade de praça e avenida largas, passeadas num bonde cujo condutor fez-se entender por gestos, ajudando a entender o itinerário. Pedimos a Jarbas Mariz que construísse uma praça e uma avenida igual em João Pessoa, ele prometeu que sim.
À noite, no teatro Le phénix, que anunciara o show na internet há uns dois meses, vi, no saguão escurecido, um grupo brasileiro que cantava sambas cariocas, numa apresentação deslocada da sala principal. Infelizmente não soube que grupo era. Nesse festival europeu pra onde fomos, promovido pela Bélgica e pelo Brasil, o Europália, há uma pluralidade de acontecimentos, mas não saber quem eram os sambistas brasileiros que cantavam no saguão escurecido foi uma desconexão que não experimentei no resto da viagem.
O "poeta-compositor" foi repórter do Jornal da Bahia, em 1959
Antonio Risério De Salvador
Tenho uma admiração imensa por Tom Zé. Mas conversamos e nos vemos muito pouco. O que é natural. Cada um vai fazendo o seu trabalho e, nesse mundo do trabalho, a gente acaba vendo somente as pessoas com as quais trabalhamos. Mas, quando nos encontramos, é sempre maravilhoso. Anos atrás, nos vimos na PUC, no Rio de Janeiro, participando de uma conversa sobre "Música Popular e Imaginário Nacional". Tom Zé foi o primeiro a falar, dando o show de sempre. Em seguida, a minha vez. Ele, com aquela sua gentileza sertaneja sem limites, ajeitou o microfone para que eu falasse da maneira mais confortável possível. Agradeci. Mas não perdi a deixa, dirigindo-me à plateia estudantil: "Vocês estão vendo que eu sou um sujeito chique - meu técnico de som é Tom Zé". Gargalhada geral, claro.
Mais recentemente, depois de ler um artigo em seu blog, telefonei para ele. Conversamos durante muito tempo, falando, basicamente, sobre a Bahia nas décadas de 1950 e 1960. Lá pelas tantas, Tom Zé fez uma revelação que me surpreendeu: fora repórter do Jornal da Bahia, em 1959. Pedi que ele gravasse aquelas coisas para mim. E ele o fez, enviando o depoimento via MP3 (é assim que se escreve?). Um depoimento maravilhoso. Mais de duas horas com o nosso poeta-compositor falando sobre uma Bahia que não existe mais. Penso, aliás, que Tom Zé deveria publicar suas memórias. Começando por seus tempos de Irará (sua cidade natal) para chegar aos dias de hoje, passando por sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual foi trabalhador assalariado, e por sua viagem tropicalista. Minha sugestão é a seguinte: um bom jornalista faz a pauta, liga o gravador e Tom Zé solta o verbo. Tudo o que ele diz é muito interessante. E cheio de surpresas. Selecionei hoje, aqui, a parte em que ele fala do tempo em que foi jornalista. Vejam:
"Eu tinha sido jornalista em 1959. Como eu lhe disse, naquele tempo, as pessoas já saíam da escola primária, do ginásio, sabendo escrever. E o sujeito era escolhido para ser jornalista porque tomava uma cerveja, fazia uma música, uma bobagem qualquer e era chamado. Então, Humberto Vieira, que era do Jornal da Bahia, um pouco mais velho que eu, me chamou. 'Rapaz, mas eu posso?' - perguntei. E ele: 'pode'. Não existia faculdade de jornalismo. Aliás, quando começou a ter, eu pensei assim: puxa vida, universidade de jornalismo? Curso de compositor? Para mim, no mundo em que eu tinha sido criado, a pessoa se dirigia a isso por paixão e acabava ganhando esse 'status' de outra maneira. Não era com diploma. Imagine... um diploma de poeta? Como era o diploma de compositor? Aí, eu falei assim: qualquer hora, vão inventar uma escola de santo. Vai ter diploma de santo."
"Humberto Vieira me disse: 'A partir de segunda-feira, você vai ser jornalista, vai ser repórter. Você começa a trabalhar às duas da tarde. Então, chegue meia hora antes para eu lhe explicar como é". Veja que coisa fantástica... em meia hora, ele fez a minha universidade de jornalismo. Era uma coisa muito simples: 'você escreve dois parágrafos de cinco ou seis linhas mais ou menos, dizendo o quê, como, onde, quando... depois você passa pelas partes mais importantes da matéria, deixando o menos importante para o fim, de modo que o redator-chefe, na hora de montar a página, não vai ter trabalho para cortar'. Eu cheguei lá na hora marcada. A uma hora e cinqüenta e nove minutos da tarde, estava formado em jornalismo. E saí para cobrir o Departamento de Viação e Obras Públicas".
"Tempos depois, no Seminário de Música, eu ouvia as pessoas falando que a escola precisava de matérias na imprensa. Então, eu procurei Ernst Widmer, que já era o diretor da escola, e falei: de quinze em quinze dias, vem um regente de fora reger a escola; me arranje aí um alemão com uma máquina fotográfica - ele tira meia dúzia de retratos, me dá as cópias e eu escrevo a matéria já da maneira que o jornal publica. Foi um sucesso. O Seminário de Música passou a ser notícia de jornal duas vezes por mês. E eu fiquei com fama de abridor de portas, um verdadeiro Chateaubriand da escola. E aí passei a ganhar 200 cruzeiros por mês, bicho! Era dinheiro. Eu estava na Bahia, rico! Imagine que, nesse tempo, eu era o único estudante que comia no Restaurante Universitário que era proprietário de um fusca. Era um negócio inaudito. Todo mundo me consultava, eu dava penada em tudo, era o caralho, era a porra toda".
Interrompendo o diário de bordo, que retomarei logo, conto a vocês que estarei em Recife com a banda, no dia 12, sábado, às 22h, no Marco Zero da cidade. Pernambuco tem entalhes fundos na minha história.
Vou cantar para o FITO - Festival Internacional de Teatro de Objetos. Os shows são sempre muito estimulantes.