AMANHÃ, DOMINGO, 'O PIRULITO DA CIÊNCIA' CANAL BRASIL
Olá, mui bela tribo nossa, avisando e corrigindo os dados que já passei: AMANHÃ, domingo, o Canal Brasil, tv a cabo, transmitirá às 21h, horário SP, o show "Pirulito da Ciência", gravado aqui em São Paulo. Pela crítica do pessoal do Canal, foi feito um bom trabalho. Eles disseram bem mais do que isso, mas me atacou uma falta de jeito de repetir os comentários favoráveis. Fica com vocês o juízo. Obrigado a Fábio, que me levantou as orelhas para o engano. Como divulgador sou um excelente anacoreta.
Voltei do RSul, show do Forum Social Mundial, tive nítida a percepção de que o povo tinha sede do show. Estamos andando na contramão, vocês sabem: agora nem são mais necessárias regras ditatoriais, os poderes estabelecidos podem ficar tranquilos, as pessoas já engoliram isca e anzol. A esperança é a atitude da minoria, mas que ainda se reúne para ter sede de outra coisa, para falar e ouvir. O show foi muito bom e muito bem.
Voltando ao começo, como o uróboros: AMANHÃ, DOMINGO, no horário de verão das 21h, Canal Brasil, será que pela Internet também vai?, transmissão de "O Pirulito da Ciência". Vou trabalhar, pessoal. Beijos.
Tribo querida, muitos blogueiros daqui falando comigo em Portugal, depois dos shows. Um casal particularmente bem-falante, que ouviu uma pergunta: Vocês participam do blog? Não, apenas leem, pelo visto com frequência, mas deu pena ver que eles e outros também boa prosa não se aventuram a entrar. Logo um povo navegador que fez circumnavegação em cima de táboas e movidos por velas de pano, curiosando quietinho! Se os víssemos por aqui, todos gostaríamos, como vocês gostaram de Anne Ventura, moça danada. O número de pessoas que foi aos shows sabendo deles no blog foi considerável. Estamos mais acompanhados do que supúnhamos, ó tribo.
Já fazendo parâmetro comparativo que preferiria não ter motivo para fazer: sabe o hábito de bater perna, que pode identificar personalidades e esculpir caracteres? O andar à-toa, sem utilitarismo visível e imediato; o gosto de parar diante de uma planta, de um tijolo torto, de uma casa velha ou renovada? Em algum lugar se fala no "andar do escritor": o escritor não se põe determinadamente em direção a um objetivo; paradas o detêm, estaca diante de uma cerca, de um portão de prédio, de um mato que quebra rejuntes de calçada - vocês sabem que planta pode com tudo, é forte.
Dificilmente nos ocorre que esse é um exercício de liberdade individual e que nós a perdemos, não a temos mais. Ou você acha que pode sair andando por qualquer bairro de São Paulo, do Rio, de outras cidades brasileiras, depois que o sol se põe? Moro nas imediações de uma universidade. Às onze da noite os estudantes descem a rua. Em magotes ou pelo menos numa proximidade que, não sei se a querem ou não, mas é defensiva. Perdemos a liberdade de bater perna. Essa tristeza aconteceu porque foram deixado o tal mercado mandar em tudo, incluindo relações entre eu e tu? É, os tais direitos inalienáveis podem ser bem frágeis, viram pó.
Me lembro da liberdade perdida ao ver jovenzinhos e velhos andando à noite em ruas portuguesas. Não estou fazendo levantamento sociológico e ignoro se há a chamada violência urbana em tais ou quais burgos. Não me palpitou que haja, nas vezes em que fui lá. Aí me lembro de que perdi para Portugal meu dentista, Toni, que trabalhava cantando "eu vou pra Maracangalha", em alta voz de descendente de italiano. Está em Portugal, comboiando mulher e filhos, e para cá não volta. Também uma produtora brasileira, Vanessa Cotrim, mudou-se para lá há dez anos, e para cá não volta. Desfruta uma tranquilidade que, diz, cá não teria.
Ora, joça! Este Brasil é tão amável, tão amorável, ele tem nosso amor e meu cordão de umbigo. Não o estão transformando em lugar assustador, onde moram ódios, não: ele já se tornou nisso; de dia, em muitos bairros, e em quase-quase todos os lugares, quando escurece.
Mas os shows, sim, foram um laço forte estabelecido com a plateia, uma ligação que se solda entre as pessoas e é a razão de fazer isto que faço. As cidades? Não me apetece falar como quem faz turismo, pois nunca quero fazer, pois vou a qualquer lugar, a Porto Alegre ou Portugal, para encontrar as pessoas com a música. Mas vá lá que seja dizer como são propícias as cidades de Viseu e Guimarães - esta será a Capital Européia da Cultura em 2012. É uma Ouro Preto de paredes claras, um Pelourinho, uma demonstração de onde veio tanta arquitetura brasileira encantadora. Tenho saudade, pois nosso passado está lá.
Sabe quando você se depara com aquele anúncio de um evento imperdível que você já perdeu? Se era notícia de jornal, virou nota fúnebre; se era panfleto, virou santinho de missa de sétimo dia. Você olha, suspira de saudade e pensa em como a vida passa rápido. Volta e meia isso acontece comigo - efeito colateral de ser uma pessoa pouco afeita aos noticiários diários, de andar sempre três passos aquém do resto do mundo, magicando. . Na última sexta-feira, numa de minhas viagens rotineiras de final de semana para Guimarães, dei de fuça com a figura agigantada de Tom Zé num enorme out-. Teorizei: putz, perdi mais uma! Mas, para minha alegria sem tamanho, o show estava marcado para o dia seguinte. A corrida à bilheteira (muito obrigada, Carlos!) rendeu-nos alguns dos últimos lugares da casa de espetáculos Centro Cultural Vila Flor.door
De cara Tom Zé surpreendeu o público ao entrar no palco sem a mínima cerimónia, apresentando os excelentes músicos que o acompanhavam (LauroLéllis, Renato Léllis, Jarbas Mariz, Daniel Maia, Cristina Carneiro e Luanda). Começou o show expondo as dúvidas de um tal taxista, Baptista - na plateia com mulher e filhas -, com quem havia feito amizade durante o dia. A questão era se Tom Zé faria um espetáculocómico, dramático ou o quê. E ficou acordado entre todos que a dúvida persistiria durante o tempo que ali estivéssemos. . Com o show "Estudando a Bossa", salpicando aqui ou ali pérolas do repertório antigo, Tom Zé incendiou o auditório do Centro Cultural Vila Flor. Mais do que uma homenagem saudosa à Bossa Nova, Tom Zé foi capaz de levá-la ao futuro. Uma contradição deliciosamente criativa e bem cuidada. Uma aula! Ou melhor, aula não, porque isso fica soando assim como um ensinamento teso: foi antes uma oficina de ideias, de embaralhar as nossas ideias sobre a bossa, de criação! O público vibrou diante dos seus saltitantes 73 anos de genialidade musical, aplaudiu ereto, dançou, bateu palmas e pés pedindo mais, e, o melhor, saiu dali com um sorriso persistente nos lábios. . Tom Zé e toda a sua competente malta podem ter a certeza de que Guimarães ficou "atoladinha". E, claro, de que o taxista Baptista, interlocutor durante todo o espetáculo, provavelmente não conseguiu chegar a nenhuma definição fixa do que era "aquilo" (e nem eu), mas ganhou no mínimo mais 800 passageiros sedentos de um papo sobre essa incontornável figura da música popular brasileira.
Venha de síncope, meu bem, isso dá pé
no bole-bole do Tom Zé!
(O Grande Auditório do CCVF é por si só um espetáculo. Moderno e aconchegante, tem capacidade para uma plateia de até 800 pessoas. Já antes havia estado por lá, mas sempre entre as primeiras fileiras. Nesta noite pude comprovar que, mesmo entre os últimos assentos, está-se muito bem, tanto no que diz respeito à acústica quanto na vista para o palco. Tom Zé lotou a casa e eu fiquei com aquela sensação gostosa de orgulho. É bom saber que um brasileiro é tão querido por esta cidade a que quero tão bem. . Já havia assistido a um show do Tom Zé em Vitória, do Espírito Santo, nos Armazéns do Porto - lugar com uma energia deliciosa, mas que, pelo menos na altura, deixava muito a desejar em relação à acústica e à ventilação. Tom Zé em palco é um furacão musical, disso eu já sabia, estava agora curiosa por ver como o receberia Guimarães, conhecida como berço de Portugal, cuja alcunha desejada atualmente é "cidade das ideias", ou coisa parecida, e que será Capital Europeia da Cultura em 2012.) .
Tribo valente, pego carona neste post, para falar de "Raízes do Brasil", o livro que vocês escolheram. Como estou em pleno mar de atribulações, que tal lerem e eu alcançá-los na volta da viagem? Se comentarem o que os vai impressionando, o que me provoca curiosidade, comentarei os comentários.
Cara tribo, chegou uma crítica de disco, de Lucina, a cantora que tem todo o jeito de quem canta porque gosta. Vocês estranham? Melhor não estranhar tanto. Título de uma das faixas: Tom Zé. Lucina é parceira de Zélia Duncan, minha filha querida. Zélia tem um gato que é meu homônimo, eu não sabia e fiquei lisonjeado. Afinal, no reino animal, ao gato pertence um quinhão de serenidade bela que talvez a vida ainda me ensine. Pessoas que botam meu nome em seus bichinhos me contam meio assim, como se de desdouro se tratasse. Pra mim é uma delícia cada novo homônimo. Mais tarde Tania vai botar aqui a faixa do disco pra vocês ouvirem. Um beijo a Lucina, a minha filha Zélia e ao meu homônimo.
LUCINA + Do Que Parece Flautin 55
Lucina é uma das mais importantes cantoras e compositoras brasileiras. Desde os anos 60, como integrante do Grupo Manifesto, passando pela dupla com Luhli, pelas canções gravadas por, entre outros, Ney Matogrosso, até os caudalosos discos solo, ela só faz encantar. É o que ocorre também com seu novo trabalho.
Trata-se de um disco curto, com apenas nove canções apresentadas em saborosos 24 minutos. São parcerias inéditas com Zélia Duncan – que nunca escondeu ser Lucina sua principal influência. As melodias são simples e envolventes e as letras, doces, falam basicamente de amor e paixão. São pequenas lindezas como Dias e Noites, Sem Suspiros, Há Tempos, Hora Marcada e Tom Zé (feita para um gatinho de Zélia e, claro, para o bruxo-gênio de Irará).
No campo instrumental o disco mescla violões, guitarra e baixo com diversos instrumentos de percussão africanos. Como se não bastasse a beleza das canções em si, o disco tem participações nos vocais de Tetê Espíndola, Anelis Assumpção, Alzira E e Luz Marina. Produção de Lucina e Ney Marques. Simples, bonito e arrebatador.
Depois dos estudos sobre o samba e o pagode, Tom Zé completa a trilogia com o álbum "Estudando a Bossa". A lição é dada em Viseu, a 21 de Janeiro. Dia 23, é a vez de Guimarães.
Com quarenta anos de carreira, o músico brasileiro é conhecido como um resistente do movimento tropicalista (embora se tenha afastado a tempos). É também uma das figuras mais polémicas da MPB, pela vontade permanente de rasgar fronteiras, pelas experiências com sons diferentes e por uma criatividade surpreendente. "Ele é ao mesmo tempo analítico ao depurar canções até às suas partes essenciais e estranho na sua paixão por ruídos engraçados", escreveu o New York Times.
Em 1976, Tom Zé produziu uma das suas obras-primas: "Estudando o Samba". O segundo tomo, "Estudando o Pagode", chegaria em 2005. O terceiro não demorou tanto tempo e surgiu no embalo dos 50 anos da bossa nova, assinalados no ano passado. Mas "Estudando a Bossa" não se fica pela efeméride nem é uma celebração reverente - com Tom Zé, não poderia ser. O músico aposta, isso sim, em dar com uma mão um apanhado da história da bossa nova e com a outra uma proposta original de exploração das possibilidades de interpretação do género. Ao mesmo tempo, diverte-se e deixa-se seduzir.
Guimarães: Compositor brasileiro Tom Zé no CCVF dia 23
O Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães, vai acolher no dia 23 de Janeiro, às 22:00 horas, no grande auditório, a actuação do compositor brasileiro Tom Zé.
Nos últimos anos, o compositor tem actuado um pouco por todo o mundo, depois de ter conhecido (na década de 1990) graças a David Byrne, que fez dele o primeiro artista da sua editora Luaka Bop, segundo o divulgado em comunicado.
Estudou composição, contraponto, harmonia, piano e violoncelo. Nos seus arranjos e orquestrações acrescentou liquidificadores, rádios, máquinas de escrever, gravadores, teclados e garrafas, juntando-os a instrumentos convencionais.
«Com defeito de fabricação» foi considerado um dos 10 melhores discos do ano pelo jornal The New York Times. A revista Rolling Stone atribuiu-lhe 4 estrelas e considerou Tom Zé de «Father of Invention» («Pai da Invenção»), aludindo a Frank Zappa e ao seu grupo musical The Mothers of Invention.
Tom Zé abre temporada no Teatro Viriato
O Teatro Viriato, de Viseu, acolhe no primeiro trimestre deste ano "figuras incontornáveis da cultura internacional e nacional", segundo o seu director, Paulo Ribeiro, cabendo ao compositor brasileiro Tom Zé fazer a abertura da nova temporada.
"É um exemplo da grande música popular brasileira. Apesar dos seus 73 anos, continua a ser uma pessoa que se transfigura completamente em palco, que tem uma capacidade de criar sons e de jogar com a língua portuguesa que é uma referência", afirmou em conferência de Imprensa o director-geral e de programação do Teatro Viriato, Paulo Ribeiro.
Considerou que ter Tom Zé no Teatro Viriato, no próximo dia 21, será "um momento único", lembrando que o compositor "foi e continua a ser uma referência incontornável" para a geração de Chico Buarque e Caetano Veloso.
Festa, Monod, Pirulito da Ciência, lama, Barenbein
Pessoal, desta vez vocês escolherão o livro que será lido por nós todos. Espero, qual será? Se for acessível, encontrável, melhor, é claro.
Festa de fim de ano
Passei o final de ano entregue à minha maior diversão, minha bebida forte: trabalhando em composição. Estou cansado que só, durmo muito pouco há uma semana. Foi um pedido de Manoel Barenbein, o produtor do disco “Tropicália”; ele me fez uma encomenda. Voltas concêntricas deste mundo da música, reencontrar Manoel num fim de ano.
Visita familiar
Amanhã vou a Araçatuba visitar meu filho.
Chuvas; as terras se movem
Uma revista, Superinteressante, diz que o século 21 será pródigo em
movimentos de terras. Como notas em pautas musicais, mais altas, mais baixas; mas a presença de cada acorde modifica a peça musical. Infelizmente essas alterações já começaram, coadjuvadas pelas chuvas. Precavenham-se, todos vocês, todos nós, em Sergipe, Tocantins, Santa Catarina. Em São Luiz de Paraitinga, onde toquei no coreto, naquele centro histórico, aqui em São Paulo coisa rara... Uma fatia de história se dissolvendo em água e terra. Que pena de São Luiz!
A estrada de Paraitinga sempre foi famosa por suas dificuldades; não muito longe de lá, amigos que temos em Cunha não podem ir pra cidade, pontes foram abaixo.
Está chovendo aqui em São Paulo agora, às 4 da tarde; até eu acabar este texto, se ele for interrompido logo, a situação se modificará. Chuva de dia quente é assim. Agora é barulho nos vidros: chuva de pedra. Neusa se encanta e põe um braço pra fora da janela. Um pedaço de gelo vem do céu com a força aumentada pela gravidade. Ela comenta que o gelo não é bonzinho, deu-lhe uma pedrada. A natureza não éfada boa. Nós estamos nela, enrolados em sua ferocidade ou sua calma, sua indiferença ao que acontece às várias espécies. Ao homem. Sapiens? Nem tanto.
Vi há décadas um comentário de um francês, seria Jacques Monod, um prêmio Nobel? É ele, sim, autor de A necessidade e o acaso. Disse que as conseqüências, algumas lamentáveis, do uso da tecnologia, não se devem a exageros, mas a uma insuficiência de conhecimento. A uma pobreza tecnológica. Como vocês veem, Monod andava na contramão do pensamento hippie, embora tenha se casado com uma curadora do Museu Guimet, o lindo museu parisiense de artes orientais.
Sinto aquele indefectível desejo deser invisível, para ouvir as conversas do casal. Vontade de ser um mosquito, nem pensar: um tapa acabaria com a minha vida e meu testemunho. Hoje mesmo compramos esses mata-mosquitos atuais, sem cheiro, sem som, e que acabam com os fiuuuns e ferroadas noturnos que ontem incomodaram; aschuvas e nosso sangue dão tudo de que eles precisam para viver.
Voltando à afirmação de Monod, o modo canhestro como manejamos o conhecimento científico, um saber que evolui e pode se transformar a cada decênio, sendo nós próprios as cobaias dele... E botamos um vulcão de palavras-disfarce sobre essa inoperância, pra não perder um raio dum tostãozinho, para não adiar nenhum negócio de grandes, pequenas e médias empresas. Enterramos nossa ignorância palavrosa debaixo desse despreparo. Sepultamos nosso futuro como espécie embaixo dessas terras que desmontam, desses alagamentos de um planeta machucado por nós. Ou por um destino climático, como dizem ou aprovam negociantes que sempre gostam dessa idéia de inevitabilidade, de destino. Não sabemos lidar com a insuficiência de nossas informações. Não queremos admitir, mas aparece uma tendência apocalíptica, um desejo de morte, nessa conduta coletiva. Puta burrice.
31 de janeiro, O pirulito da ciência, Canal Brasil.
Me avisaram que seria transmitido no dia 31 de dezembro o show “Pirulito da Ciência”, gravado no teatro Fecap em São Paulo, ano passado. Deu um dvd e um cd que ficarão prontos em fevereiro, segundo a Biscoito Fino.
Estranhei que nenhum telefonema ou transeunte tocassem no assunto estes dias. Bom, é que os avisadores se enganaram, a transmissão será no dia 31 de janeiro, pelo Canal Brasil, 66 da Net.
Portugal e Fórum Social Mundial
Dia 19 vou para Portugal com a banda, para Viseu, show dia 21,e Guimarães, show dia 23. Mudança para neve e frio, saindo por alguns dias deste verão brabo. Conto a vocês na volta como foi o choque térmico. Ou se houve. Capaz que não.
Na volta ao Brasil, vamos no dia 28 a Canoas, Rio Grande do Sul, para o Fórum Social Mundial. Será a comemoração dos dez anos do Fórum. Mas já faz dez anos que cantei lá? Fiz uma música que diz Pois cada homem é, sozinho / A casa da humanidade. O que leva de volta à situação das chuvas, à lama. Com a audácia do medo, só vemos feiúra na perigosa matéria-lama.
Vocês conhecem Rodrigo, radialista de Guaxupé – da Guaxupé Broadcasting – queme entrevistou, há algum tempo. Vez por outra ele vem aqui. Carolina Borges, também conhecida dos de boa memória, eu conheci numa entrevista em Brasília. Os dois se encontraram aqui nesta tribo. Pois estão casados e morando além-montanhas, em Minas Gerais. A notícia-bomba – bomba francesa, éclair digno da tal Casa Fauchon – foi recebida com longos segundos de interjeições; foi um júbilo exclamativo.
Se há notícia dezembrina, muito mais do que vinhos, rabanadas, dispepsias e prestações, é esta. Rodrigo e Carolina, vocês foram motivo de uma comemoração particular por aqui. Na produção foi um busca-pé, as moças espalhando para a banda e para quem passasse pela porta e pelo telefone. Eu, sancionando tais providências. Afinal,sou de Irará; uniões, desencontros, crismas, são assuntos de monta, embora às vezes os sertanejos, em sua solenidade, não passem recibo.
Que blog casa as pessoas, não tinha me ocorrido. Mas deveria, como não? Tutti quanti neste mundo procuram elos, ligações, ou até encrencas, às vezes parte integrante dos elos, desde que seja com o outro, desde que haja o outro como tema.
Eu juraria que tinha outro assunto para levar a vocês, mas o casamento dentro do blog roubou a cena e a memória lateral.
No post anterior, falei sobre esta quadra do ano e sobre São João. Agora falo sobre um rito de fecundidade, ritualizado comemorativamente também nesta quadra, por Rodrigo, Carolina e por nós. Saibam todos.
Não posso dizer: mudaria o Natal ou mudei eu. Machado acerta cada tiro no alvo! Machado – substantivo comum, não nome do autor – tiro e alvo são associações pouco pacíficas, não há presépio que as acolha. Bom, mas a urgência do comércio já tornou pouco pacífica a Antevéspera, o Advento.
Voltando ao começo, já nasci mudado: nunca a aura da árvore-da-vida, esse vermelho e verde que sarapinta o final do ano ocidental, me fizeram bater a passarinha. Essa cultural música de fundo não me diz respeito nem é novidade.
Vim aqui falar com vocês porque o que me impressiona, neste ano, é o número de pessoas que me dizem que não conseguem entrar na vaga dezembrina que divide a temporalidade em morta e nova. Falam com perplexidade. Um motorista paranaense me conta que nem parece que uma marca mais forte está chegando, essa marca litúrgica de uma divindade que vem gatinhando para nascer. Traduzindo para a língua cotidiana do taxista Arlindo: ele diz que não parece Natal. Aí me lembro dopoema de Yeats, A segunda vinda. É tremendo.
Para esses alijados de uma luz que se atenua, quase apagada, só há anotações periféricas enquanto nadam semanas afora o ano todo: alguém entrou em férias; o decênio passou com velocidade supersônica, para onde foi?; fulano se gastou esperando os fins de semana, pífios, e vai adiando a mesma espera, quem sabe no outro domingo nasça um pouco mais de alegria?; a mãe culpada marca a cirurgia do filho; um casal de meia idade se mete numa viagem de grupo, numa excursão que atravessa os Alpes nevados e cinzelados, bestificando-se com a trilha sonora que os excursionistas escolhem para olhar a paisagem, uma música mexicana com sopros de coreto que em dois meses todos esquecerão. De dar tristeza.
Para os cristãos o Natal era um nascimento, um ovo que se abre aos poucos, rebentado em meio ao hálito de outros animais, na manjedoura. (O que é manjedoura?, pergunta o desavisado urbano.)
Os que se queixam pra mim, em calmo espanto, não se importam com placenta, dores do parto, estrela-guia. Quem os pôs pra fora da comunhão? Que mal-estar é esse – talvez o da civilização, diria o parteiro Freud – que não os põe diante de si mesmos, no primeiro passo pra olhar o outro de frente, ou pelo menos de soslaio, olhadela de canto? É pior que uma dor crônica, é pior que não ter vontade de que amanheça. Não percebem que perderam. Mudou o quê? Não é a morte de uma estrela, é o esquecimento de que ela houve.
Há algum bom sinal, se ainda houver sinais, nesta transformação a frio? É a consumação, a consumição de tantos carnês, de presentes sem presença, a constatação da própria mortalidade opaca que nem morde mais o instinto de sobrevivência nem acorda um xingamento, ou pelo menos um sono profundo, sem calmantes etílicos?
O tempo sempre se vinga. Agora, vinga-se por ser tratado como servo de datas marcadas, de consultas médicas, advocatícias, de agendas de trabalhos mornos, de baladas. Que prestam para dar corpo à caminhada do dia e da noite; dia e noite seriam insuportáveis sem as tarefas ou diversões mornas. Evitando que se suspire pelo que fazer, ah, se não fosse a mecanicidade de seus dias, o vácuo mataria um por um. Somos parentes da esfinge, há milênios assentada naquelas areias sem que ninguém conte por que a enterraram lá: já está gasta, roída pelo sol.
Falo de vez em quando do tempo redondo do mito, no qual os renascimentos e ressurreições circulam numa vitória da vida; nele, vida e morte e ressurreição ganham a parada. Nasci nesse tempo de lenda, sem o comando da linearidade horizontal dos pagamentos de dívidas, balancetes financeiros, que de acessórios passaram à centralidade do nosso destino de compradores e pagadores. Não é mais época de folhinha de calendário, é época de planilha.
Eis por que o desencanto. É um equívoco, um descaminho, esse tedium vitae de pessoas ocupadíssimas.
Não engulo pessimismo nem desespero, mas minha esperança não se alimenta desse otimismo sazonal. Inda mais porque em minha região baiana São João, primo de Jesus, tem ou tinha mais relevância. Coisas das vivências do espírito das gentes.
Comprometimento e pagamento. E a embriaguez da Cris?
Meninos, o poder público, que é você, que sou eu, que são talvez nossos pósteros, assim espero, e aqueles cargos eleitos que estão por aí se exercendo, não fazem favor algum, quando apoiam um show, uma exposição, uma folia popular. Pão e circo os romanos já queriam para sossegar os inquietos. (Pelo amor de Deus, não se desinquietem!) Os brasílicos se lembraram agora do circo, com esses 50 reais do vale-cultura, para pagar entretenimento, ou entretenimento como veículo de cultura, como queiram; quanto ao pão, as bolsas-família estão aí. Diferentemente do fome-zero, projeto que abortou, de Frei Betto, as bolsas foram adiante. Por quê? A exigência de comprometimento comportamental responsável de quem recebia o primeiro projeto seria maior? Se for isso, foi pena ter abortado. Um parêntese: se tanta gente é maleável ao pão distribuído, a necessidade de comer melhor era uma realidade. Mas é preciso as pessoas andarem com suas pernas e cuidarem do que pagam pelo ato/fato de morar num país, qualquer que seja. No caso, voltemos para o nosso, falando dele.
Nenhum governador, senador, presidente, vereador, está dando, concedendo coisa alguma ao possibilitar que uma peça seja encenada, que alguém se mostre, que um gesto popular vá riscar o meio da rua. O que os representantes políticos distribuem é nosso, não é deles. Neris. O papel que fazem é esse, de distribuidores dos nossos bens. É uma devolução, um reemprego do que nós pusemos nas burras. Quem se deixa comprar por essa distribuição é porque já estava na prateleira esperando ofertas. Como a carne é fraca, que se cuide quem recebe um caraminguá.
Será que uma empresa que pague um espetáculo não compromete? Usa seus recursos particulares, privados – palavra de solerte dubiedade – para alguém que se identifique com ela. Se identifique em quê? Vamos de novo ao comércio, há dois posts eu dizia que começamos a falar em arte e estávamos em pleno mar da grana. É bom que tudo seja discutível.
O pão pode calar a fome, mas não transformar a coluna em creme mole, aquietado.
Como, reafirmo e reafirmarei várias vezes, o que não sei de comércio dá para encher a Britânica, as nuances que fiquem pra quem sabe melhor delas. Mas é isso.
Cris, você tem razão, e o assunto agora é pessoal. Não falei do livro da Neusa, das aulas de teatro de Anatol Rosenfeld, cujo manuscrito ela leu pra mim algumas vezes, para não levantar uma poeira danada. Ela diz que o livro é de Rosenfeld, não é dela, que se limitou a transcrever cada palavra das aulas com a maior fidelidade possível. Não gosta nem de falar no assunto. Mas com isso só uma prospecção como a da Cris poderia achá-lo, e nem sei como Cris ligou o nome da autora à Neusa que ela já conhece. Bom, aviso que o livro saiu pela Publifolha e que Anatol Rosenfeld é um dos intelectuais mais extraordinários que pisou no Brasil nos últimos 50 anos. O título é Aulas de Teatro. Que aulas!
Cris, que é que tem nesse conhaque? Ele não pode ser responsabilizado pela pororoca, pela turbulência de informação e reflexão que você dá. Se foi o conhaque, você o toma desde menininha. Não se desembriague. Lembra de Dionísio? Pois é, tudo começou com o caldo da uva.
Fabrício, talvez também Ramon, que perseguem uma juntidade ou coesão de produção artística e correção comportamental, estão preparados para a desilusão? Desilusão pode ser uma bela palavra, no véu que cai, des-velar, mostrando a verdade. Mas a verdade é uma das ossaturas mais refugadas e recusadas. É voluntária e involuntariamente esquecida, background, segundo plano. Existe, embora desconsiderada; compõe a paisagem, como aquele azul-laguna dos quadros venezianos de Canaletto. Retirar ou substituir a cor mataria o quadro e a alegria de nossos olhos - pois esse azul-laguna é uma verdade encontrada pela arte. Mas esquecemos, jogamos fora a tal verdade. Embora ela seja a única armação óssea que põe de pé o universo, a falta de hábito, as ilusões e o medo nos fazem correr da convivência com ela.
Voltando a Fabrício, quem sabe a Ramon: porque Adorno nos pode reafirmar, dá para assinar embaixo da conduta dele para com seus pares judeus, durante a psicopatia coletiva do nazismo? Seu nome de família era Wiesengrund, marcadamente judeu; desde 1933 trançou os pauzinhos junto ao Reich para que prevalecesse sua origem genovesa por parte de mãe, adotando-lhe o sobrenome e ignorando a origem judaica paterna.
E sua crença na "assimilação", ou seja, no caráter inócuo do nazismo, ao qual ele e outros intelectuais aderiram, desgrudando-se com relutância? Dá para endossar o menosprezo, a falta de solidariedade a Walter Benjamin? Apropriando-se sem citá-lo, tratando-o com superioridade, aconselhando Benjamin a solicitar admissão no salão de escritores criado pelos nazis? Bem feito que acabasse perdendo seu lugar na Univ. de Frankfurt, na "depuração" nazista; foi alijado em companhia de Horkheimer, a propósito.
Ele fez ligações entre filosofia e música, o que não o impediu de criticar elogiosamente "música coral que retoma a tradição antiga e se refere explicitamente ao que Goebbels chamou de realismo romântico". Cáspite!Era uma música inspirada em poemas de dirigente nazista. Censurou o "jazz negro" nas rádios alemãs, julgando-o "música decadente". Cáspite 2.
Não tenho isenção nem imparcialidade. Equilíbrio é postura muito difícil. E tudo fica mais complexo diante de atitudes propiciatórias de grandes crueldades, em épocas como a da 2a. Guerra. Vamos ao lado b: li de Adorno um ensaio que fala sobre as tentativas de dar a livros uma descaracterização temporal, não mencionando data de edição e por aí indo. Havia algumas boas considerações sobre essa escamoteação de dados. E agora, meninos? E quanto a Heidegger, indefensavelmente antissemita, terrível, mas filósofo importante?
Para trazer a encrenca a um patamar que trata, curto e grosso, um paradoxo, vamos a uma canção sacudida, de ambivalência trivial, uma esculhambação cantada, um sucesso comercial e tanto. Ela diz: "você não vale nada mas eu gosto de você". A questão é inversa-mas-igual: não consigo gostar desses dois intelectuais meliantes e importantes. Procura-se uma canção que diga: você é um luminar, o cão chupando manga, tem serventia, mas o sapo não passa na garganta.
Não estou montado em nenhum pódio de pretendida excelência pessoal, dileta cambada de vagabundos. Mas que há buraco sempre mais embaixo, há.
Ramon, vamos falar de música e dinheiro. Comecemos pelo público, para ele os compositores compõem: veja que agora, no século 21, os jovens preocupados com as questões coletivas ou com a pergunta-título deste post podem não ser maioria. E falo de boa parte da juventude universitária, não só de uma adolescência afastada das possibilidades de informação e que cultiva como prioridade as questões hormonais e não anda muito além delas. (A propósito, que nós somos bichos, somos; não há por que ignorar a biologia que nos origina. Comer e continuar a espécie, veja Freud: para alguns, isso é quase tudo.)
Mas, voltando e puxando o fio da pipa, que lá ia andando espaço afora: não dá pra imaginar o pessoal do iê-iê-iê dos anos 60-70, que alcançou o chamado sucesso estrondoso, estabelecendo como alvo prioritário de suas composições a aprovação dos patrões da TV e do disco. Não creio o iê-iê-iê submetesse seus rocks eficientes a esse parâmetro inicial. Que sempre quiseram sucesso, difusão pública, atingir o maior número de pessoas, por que duvidar? Música é partilha, qualquer que seja ela; e música popular é partilha par excellence. Quando o compositor começa a trabalhar, há o fio da navalha inicial. aquele momento arriscado em que ele quer fazer o melhor. E isso pode afastar o público. Depende de quão inusitado, arriscado for o que ele fizer. E essa é só uma das etapas.
Lidar com dinheiro e capacidade de sobreviver é enfiar a mão em rolos: lucro, comércio, preço. Preço
pode ser melhor se for baixo; estão aí as bandas calipsos para provar.
Pois é, você começa a falar em música e no meio da conversa está
discutindo compra e venda, receptividade de público.
A má fé espia, posta-se a um passo daqueles que discutem. É preciso
andar meter o pé nesse fio da navalha.
A arte, por encomenda ou não, tem de ser desinteressada, em seu momento de concepção,
de preferência mantendo-se assim até a hora do parto. Não sei, mas sei pouco de tanta coisa, se é possível fazer
uma labuta artística de outra maneira. Mas sempre estamos
falando de arte, ao falar de música popular?
Boa parte do tempo, acho que sim.
Ramon e outros inquietos, quero bem que isso seja possível.
Num texto para “O Estado de São Paulo”, há cerca de dez anos, comparando Bossa Nova e Tropicalismo, recorria essa qualificação também, dizendo que o Tropicalismo abrira as portas para novas assimilações. Essa impureza, essa mistura, é notada diuturnamente, quando os críticos observam que criadores misturam forró e jazz, samba e rock... ...
Diz Tatit, na página
207 – O projeto extenso do tropicalismo define-se pela assimilação.
Antonio Risério fala em “estômago de avestruz” para referir-se às misturas, criticando-lhe os critérios e a deglutição onívora do que aparece à frente do criador.
207 – Sobre a época das desavenças entre MPB engajada e os assimiladores,
a conseqüência imediata dessa avaliação, geralmente dualista, era a exclusão
conduzida por um processo de depreciação dos artistas pouco comprometidos com
a “causa”.
208 – Tudo indica que a falência dos festivais começou quando os selecionados passaram
a dividir a atenção do público com os eliminados. A desclassificação de “Questão de
ordem” e o affaire “É proibido proibir” tiveram papel especialmente relevante nesse
processo.
209 – A exclusão, na verdade, estava no ar, como fruto da mentalidade maniqueísta do
momento, que impedia a apreciação desinteressada dos artistas e de suasobras.
Naquele momento de alta voltagem emocional que incendiava ideias, a apreciação
desinteressada e imparcial era pouco possível e rara. Uma postura tucana avant la lettre,
chamada hoje de murista, de alguém que se coloca sobre o muro, para uma eqüidistância
que o engajamento vê com pouca simpatia, poderia ser tomada pelo Tropicalismo,
incorporando Vicente Celestino e a música americana. Se abrindo para canções de massa
ou apenas insólitas.
210 – Pensemos .,.. na chamada “passeata contra a guitarra” que a frente ampla da MPB
-- com a anuência, inacreditável em vista do que ocorreria pouco depois, de Gilberto
Gil -- realizou contra o iê-iê-iê...
Vandré tentou convencer Guilherme Araújo, empresário do “grupo baiano”, a
concentrar-se num nome como o dele, Vandré ..., já que, segundo o compositor, o
mercado só conseguia digerir um nome artístico de cada vez.
Ou seja, Vandré também partia da briga de mercado ao argumentar. Até que ponto
a fundamentação do argumento lhe era transparente, então, é impossível afirmar.
211 – Aparentemente irresponsável – ou até leviano – pela falta de critério seletivo [não há
como não mencionar de novo o “estômago de avestruz” apontado por Risério).
na verdade o gesto tropicalista pressupõe o gesto bossa-nova. Aquele assimila
enquanto este faz a triagem. ... são gestos ... que tendem a perdurar na cultura
brasileira como ... regulagem da nossa produção musical.
É um pêndulo que, em filosofia, é representado por Platão e Aristóteles. À medida
que os temas ficam mais popularizados e cotidianos, no caso da música popular,
as direções pendulares binárias aparecem como tropicalismo e bossa-nova.
CANÇÃO POP
214 - ... o samba perde o status de modo de dizer por excelência da canção
brasileira. É através da canção pop que os autores e intérpretes passam a
exercitar habilidades temáticas, passionais, ... pouco importando a procedência
das formas ..., o que abre ... o horizonte ... para o acolhimento do rock ... como
música perfeitamente brasileira.
Imagino Tinhorão lendo este trecho. Sua discordância e discussão dariam pano
pra manga.
215 - ... na música pop anglo-americana, de Bob Dylan a John Lennon, os
apelos humanos e críticos mais penetrantes procediam de vozes ... [já asseguradas]
pela ... indústria do disco e do show-biz. Assumir contradições como essa era o
primeiro passo para reapresentar os desafios da época em outras bases.
215 - ... canções que hoje parecem muito simples .... cumpriam a função de libertar
os compositores das utopias revolucionárias e de convidá-los a uma interação ...
com os estímulos ... da nova sociedade de consumo. “Alegria, alegria”..., “Superbacana”
ou “Parque Industrial” ... adotavam um tom ambíguo – de adesão e desprezo – em relação
a esses estímulos.
A ambigüidade já vinha desde o século 19, desde Balzac, primeiro exemplo que me
vem à telha. Ele falava na sedução e na feiúra da cidade industrial. Me ocorre Monet com a Gare Saint Lazare, velando de fumaça, dando flou aos contornos hodiernos da estação de trem.
O lirismo facilita a tematização do contemporâneo. Em Parque Industrial, por exemplo,a presença de lirismo por metro quadrado é pequena, é reduzida desde o título.
O final do final será a 3a. mensagem, aguardem pra já.
Justamente hoje, no Dia do Samba, 2 de dezembro, acabamos a leitura coletiva do livro de Luiz Tatit. Abro para os acordos ou não. Tatit vai em itálico. Recebi um aviso automático de que o texto está muito taludo, grandote. Vamos dividir.
TROPICALISMO
200- ... o que assegurava (desde 1965) a liderança de audiência da emissora era o programa Jovem Guarda comandado por Roberto Carlos. Desprovidos de ideologia doutrinária... seguiam à risca, sem o saber, a ideologia que mais interessava aos patrões: a dos números.
202- ... esquerda ... criava(m) um consenso sobre a forma musical de poética da
“verdadeira” MPB ... [com] instrumentos acústicos, ritmos regionais, temas ligados
à terra ou mensagens de esperança para um futuro imediato. ... ... estava em curso
um projeto um tanto sectário de seleção da música e da estética brasileiras204 - Exemplos de duas canções recusadas por boa parte do público, Questão de ordem (Gil) e É proibido proibirsão casos de decomposição da canção em fala prosaica... dissolveram-se, por assim dizer, em fala.
205 – [Esses e outros exemplos do] percurso ... da canção para a fala pode ser tomado como um processo de decomposição e de mergulho na instabilidade.
Um problema encarado com dificuldade por artistas na época da cisão ideológica entre engajados e alienados foi a de todos lidarem com o resultado de seu trabalho que o mercado converte em mercadoria. Para maior embaraço, essa mercadoria era, em grau maior ou menor, arte. E força de trabalho.