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Bom pessoal, agora é que vamos realmente inaugurar este blog. Estou publicando hoje dois trabalhos que têm algo em comum e gostaria de analisar essa coisa com vocês. Trata-se do artigo sobre Caetano Veloso publicado no Jornal O Globo de 21/05/2007 com o título de Carta Aberta ao Caetano. E também a letra de Classe operária, que está no CD No jardim da política.
Nos próximos dias coloco o áudio de Classe operária, é que agora eu queria discutir o texto sem influência do canto.
Um abraço, Tom Zé.
Prezado senhor Caetano:
Estou revoltado. És o que és, grande traidor. O senhor é um suicida.
Esclareço: quem tem inimigos como Caetano Veloso não precisa de amigos. Claro que me refiro àqueles inimigos leais que o perseguem sem trégua e acabam provocando uma espécie de “reversão do meio superaquecido”, desencadeando o efeito contrário. Mas Veloso não é veludo e esse “Cê” veio trair a todos.
Prezado senhor: “Apesar de nossas enormes discordâncias” – que o inferno as tenha, pois nem mesmo as considero e só me expresso assim para imitar o preciosismo do escrevedor que tem medo de amar. Porém, por minha parte, prefiro abrir concupiscentes pernas, exalando soluços por todos os poros, dando ao ato de amar total irresponsabilidade, porque ante a cupidez estética de “Cê” só a nudez tem língua.
És o que és, grande traidor.
Entras no palco dirigindo contra nós a carruagem do tempo em alta velocidade e, como o Jano de Shelley, apesar de teres duas ou quatro caras, vens com todos os olhos vendados. E não podes nem queres deixar nosso coração em paz, a desfiar nossas velhas e amenas mentiras. Não!
Brincas com a impermanência diante da platéia, como se nossa pele fosse matéria-prima inorgânica ou carne de laboratório. Com graça e arte tentas nos atrair com laços de volúpia, submetendo-nos a blasfêmias emocionais para as quais nem teu parco bom senso atingiu consenso ainda.
Por exemplo: queres nos induzir à responsabilidade. Mas como, inveloso traidor? E quando estivermos a sós, depois da fugaz ilusão da tua companhia protetora durante o show, como nos arranjaremos, na intimidade crua, com essa dama asquerosa, inconveniente e constrangedora – a tal responsabilidade? Por essas e outras, sumo traidor, é melhor que assumas, logo e sem máscaras, a Quinta Besta do Apocalipse, que é o teu papel neste mundo.
* * *
1.
E quanto aos arranjos: Beethoven, em 1808, na Terceira Sonata para Piano e Violoncelo, além de inaugurar a sonata moderna, na qual, entre outras inovações, o instrumento de corda não é mais um simples acompanhador do piano – e justamente para obter isso – teve de evitar que os médios e graves do piano encobrissem o cello, escrevendo com habilidade para os dois instrumentos, principalmente quando nesta região. Pois Beethoven conseguiu passar a lição para os arranjadores deste “Cê”. De onde terá me saido esse Pedro Sá (guitarra)? E esse Ricardo Dias Gomes (baixo) e esse batera Marcelo Calado, que batera! Parabéns, Moreno, é cada moleque!...
Que alívio ouvir um trabalho em que guitarra-baixo-bateria-violão e voz estão sempre e engenhosamente evitando se atropelar na mesma região da escala de hertz, porque quando se dá esse imbróglio atropelam também o trabalho do técnico de som, que na luta para fazer ressair voz e banda faz a platéia pensar “nossa, preciso urgentemente de um medico de ouvido”.
Os arranjos se desenvolveram durante a turnê e se tornaram aconteciments sonoros independentes, com trechos inteiros que podem pleitear o status de composição. Por isso, a comparação com Beethoven: tudo em que ele punha a mão era montagem inaugural do potencial de enredo e força da tonalidade – a mais filosófica invenção ocidental. Descaminho da escala diatônica de Gregório Magno, a tonalidade, esse mantra desenvolvido em volta do centro tonal, distraiu e deu insumo à inteligência no Ocidente, de Descartes e Kant ou Newton e Einstein até José Ramos Tinhorão – para ter seu final no Mc Sandrinho e Bola de Fogo, com o meta-refrão microtonal e pluri-semiótico “Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”.
E assim, senhor Quinta Besta do Apocalipse, és o que és: um desveloso traidor.
Tom Zé
Classe Operária (TOM ZÉ) Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária. Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários. Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários. Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária. Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,
mesmo que elas não entendam seus desígnios.
E assim,, depois de determinar
qual é a política conveniente para a classe operária,
Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes
e com o sentimento de culpa aliviado.
Escrito por Tom Zé às 14h45
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Saiu hoje no Caderno de Negócios do Estadão uma notícia sobre o novo projeto da Trama. Leiam abaixo;
Um abraço, Tom Zé www.tomze.com.br
Segunda-Feira, 03 de Março de 2008
Estadão de Hoje
Gravadora agora oferece álbuns de música grátis pela internet
Na busca de novo modelo de negócios, artistas da Trama começam a ser remunerados por patrocínios de empresas
Renato Cruz

A internet criou um problema difícil de ser superado pela indústria do disco. Os sistemas de troca de arquivos causam um declínio acelerado nas vendas de CDs e DVDs de música, que nem o comércio crescente de canções digitais consegue compensar. Nesse ambiente, as empresas testam novos modelos de negócio. No mês que vem, a gravadora Trama planeja lançar seu primeiro álbum virtual, gratuito para o ouvinte e sustentado por publicidade.
No ano passado, a empresa lançou o download remunerado em seu site TramaVirtual. Nesse modelo, os artistas que colocam suas músicas digitais no site recebem uma participação na publicidade, que varia conforme o total de músicas que foram baixadas. ''''A gente começou a observar que as bandas estavam colocando o disco inteiro no download remunerado'''', afirma João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. ''''Mas 12 músicas colocadas assim não são um álbum inteiro.''''
Segundo Bôscoli, para virar álbum inteiro, faltam a seqüência das músicas e a direção de arte. ''''O álbum virtual é um arquivo que vem com dados, áudio e imagem'''', explica o músico e produtor, filho de Elis Regina e Ronaldo Bôscoli. O álbum virtual será sustentado por anúncios e, por um tempo determinado, oferecido de graça na internet, sem limite de download.
''''Durante aquele período, o artista já está protegido nos seus direitos autorais, com um dinheiro que recebeu antecipadamente'''', afirma Bôscoli. ''''Por exemplo, a gente tem um acordo com uma banda nova e vai pagar entre R$ 12 mil e R$ 15 mil para ter o direito sobre o álbum dela durante três meses.'''' O anúncio do patrocinador vai aparecer na base do hotsite do álbum virtual e, a cada download, o internauta vai ver uma mensagem do patrocinador e outra do artista. O pacote deve custar ao anunciante a partir de R$ 200 mil, no caso de uma banda iniciante, com direito a um show de lançamento e divulgação do álbum.
A Trama não identificou, fora do Brasil, nenhuma gravadora que tenha adotado um modelo parecido. O álbum virtual pode ser visto como uma das iniciativas da indústria da música para escapar da crise criada pela internet. Os números oficiais de 2007 do mercado brasileiro do disco ainda não foram divulgados, mas o faturamento deve ter ficado em cerca de um terço do que era em 2000, apesar do crescimento de 185% no ano das compras de música digital via internet e celular.
No lugar de montar serviços próprios, as grandes gravadoras têm usado os portais de internet e as operadoras de telefonia como canais de venda de música digital. O UOL Megastore vende canções digitais, por download. No Sonora, do Terra, o internauta paga uma mensalidade, ouve álbuns inteiros e cria rádios personalizadas. Na loja virtual da TIM, os clientes da operadora podem baixar músicas completas e pagar somente pelo tráfego de dados feito no download. O celular respondeu por 76% das vendas de música digital em 2007.
AUDIÊNCIA JOVEM
O primeiro álbum virtual da Trama será a versão ao vivo de Danç-êh-sá, de Tom Zé. ''''A internet é uma pescaria que não tem anzol sob medida'''', disse o músico, em entrevista por telefone. ''''O João Marcello sempre acreditou que não se podia castrar a liberdade da internet, e que a empresa precisava se adaptar. Realmente eu me sinto alegre.''''
Tom Zé, de 72 anos, tem uma audiência jovem. ''''Meu público mais velho é o universitário'''', afirma. Seus fãs são justamente aqueles que estão parando mais rápido de comprar CDs. O próprio Tom Zé disse que quase não escuta música popular. ''''Todos os rádios lá de casa ficam na Cultura FM (que toca música clássica).''''
Apesar disso, ele diz que gosta de artistas novos, como Mallu Magalhães, que tem 15 anos e fez sucesso no MySpace.
Tom Zé não baixa músicas da internet, mas pede para sua mulher, Neusa Martins, ou para a assistente de produção, Tania Lopes, baixar para ele. ''''Eu aprendi agora a passar e-mail'''', diz o músico. ''''Eu ouvi a música da Mallu e fiquei muito contente. Fiquei fã da Mallu.''''
Escrito por Tom Zé às 16h55
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