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NÃO, CAETANO.
Não, Caetano (foi parar no orkut um comentário do blog de Caetano Veloso sobre o disco "Estudando a Bossa".)
Não, Caetano.
Não posso aceitar. Agora estou irremediavelmente desertado e não posso mais voltar para o colo do grupo baiano. Você sabe que seus braços são preciosos e irresistíveis, mas não posso ir comemorar neles este disco, nem com você.
Escolho, também por dever, privilegiar aqueles que me deram proteção e alento durante todos estes anos; quero estar com Elifas Andreato, que não tem metade do seu prestígio mas foi um porto protetor, e fez tudo por mim durante uma longa noite de solidão; tenho de procurar Alberto Villas, jornalista que me acudiu, tenho de ir ao abraço de Arthur Nestrovski, que lançou meu "Tropicalista Lenta Luta" na Publifolha.
De João Araújo, pai de Cazuza, que chegou a me mandar dinheiro escondido naqueles tempos.
De Cesare Benvenutti, que tomou de assalto o estúdio de Miguel Maimoni, do "Três do Rio", para gravar o "Nave Maria" durante a madrugada no horário disponível.
Lauro Léllis, Milton Belmudes e Charles Furlan - quem são eles? Não são nada diante de sua grandeza e influência, mas de 1982 a 84 ficavam comigo durante a madrugada no mesmo estúdio, resolvendo as encrencas daquela Nave, enquanto Cesare adormecia, debruçado na mesa de som, esperando que estivéssemos prontos para gravar cada idéia do disco. Tenho obrigação de comemorar com eles qualquer resultado mais positivo nesta vida.
Sinval Itacarambi, da revista "Imprensa", viu o show "Jimi Renda-se" no Sesc Consolação. Admirou o espetáculo e se juntou a Fred Rossi, tentando inventar um jeito de me salvar. Sinval tomou como encargo me arranjar um patrocinador e fez o representante dos licores Bols ser submetido a uma audição das músicas que eu fazia, na casa deste... Nossa! Deve ter sido necessário um pai-de-santo para tirar o assombro que eu podia ver na face do posudo rapaz vendo o prestígio de seus licores ameaçado pela barbárie imbebível que eu praticava.
Essas pessoas se arriscaram e agora quero, pelo menos, comemorar com elas. O falecido Walter Durst me impôs ao indignado Avancini para que eu fosse assistente de baianidade da mini-série "Rabo de Saia". A indignação de Avancini era tão evidente que parecia ameaçar até o emprego de Durst na Globo.
Sônia Robato me deu para compor três histórias infantis da Editora Abril -- "O Macaco Malaquias" e outras.
Cada trabalho desses significava vários meses de supermercado, pois em casa, o trabalho de Neusa no Sesi muitas vezes era o que se tinha e estávamos conversados. (Estas parecem certas narrativas sobre os miseráveis de Charles Dickens. E são.)
Por falar em Neusa, do que ela agüentou com fairplay e bom humor não se pode fazer a conta.
Salomão Gorenvaitz e Jaime Cerebrenik inventavam me fazer cantar nos casamentos das filhas. Valdemar Szaniecki me aconselhou a cantar música caipira. Como eu vacilasse, ele apresentou idéia mais ousada e me deu uma longa explicação de como eu, usando um turbante branco com uma pedra no centro, sentado numa alva mesa, com alguns outros utensílios de adivinhação, -- como eu poderia, enfim, ganhar a vida com mais facilidade e parar de lhe tomar dinheiro emprestado.
Por causa desses e de outros tantos que aqui esqueço, eu não posso aceitar agora o seu colo e do grupo baiano, que durante todos esses anos me separaram até do que era meu, enquanto gozavam todo o prestígio e privilégios, talvez como ninguém mais neste País analfabeto.
Tom Zé
Escrito por Tom Zé às 04h51
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ADULAÇÃO, SEM ESSA
Bru, você tocou na palavra-chave: bajulação. Falei em adulação outro dia. É terrível ver como é pecado, politicamente incorreto, discutir certas coisas com a juventude, com a velhice: têm sempre razão. São vistos como consumidores, ou como espectadores, sempre há o que explorar neles. Isso é ignorar a igualdade entre as pessoas e a necessidade de discutir com elas o que é preciso.
Como é que pode, ver a juventude sendo insensibilizada, injetada com um monte de lixo, culturalmente inclusive, e dizer que ela está certa, bater palma pro suicídio? Tem dó! Não há planeta que resista. Mimar é um jeito de ferrar com a criatura, ó Bru. Falo de uma maioria que não é absoluta, não. Meu público, que exige, que fala comigo aqui, espera mais. Mas esses milhões de ilhas humanas, cercadas de solidão, isoladas por todos os lados, em vazio e formas brandas ou não de desespero...
Não dá pra agradar essas pessoas empurradas prum trabalho que lhes permita comprar tranqueiras -- quando acham trabalho, bem entendido. Ou sendo infantilizadas, grudadas em outros seres falsamente adultos.
Há o que dizer, sim. Por hoje é só. Você tocou numa palavra importante, adulação. Quem bajula é cúmplice e tem o que ganhar com a bajulação e a cumplicidade. É crime.
Abraço, às 7 da noite tenho bate-papo no UOL, espero que vocês possam estar lá.
Obrigado,
Tom Zé
Escrito por Tom Zé às 18h10
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