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EM BRASÍLIA/PROPOSTA: LER COM VOCÊS

          Calma, trabalhadores do Brasil -- gostaram mais do que do "rebanho de vagabundos", que suscitou indignações/questões cristãs imediatas? Ói lá, quem convocava a gente assim era Getúlio Vargas, que entregou Olga Benário Prestes à Gestapo, a despeito de ter feito a CLT. Poliedro é poliedro. Nem sempre é sempre.

           Calma, então: quando digo "em Brasília" não falo de nenhuma intervenção de natureza mais senatorial. Só conto que estou chegando, não vejo a hora. Levarei o show "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza" para os brasilienses nesta sexta e sábado (oito e meia da noite) e domingo (sete da noite), no Teatro da Caixa. No sábado às quatro da tarde, no mesmo lugar, converso com o público, um papo de natureza dialógica, espero.

            O clima da cidade é muito, muito agradável. O friozinho, leve, que se instaura à noite, a transparência do ar diurno... Brasília, não vá dizer que estou com tonterías, lembrando de Zurique no outono ou coisa parecida, ói lá, providencie transparência e amenidade. Quero rever as pessoas que vi aí há, quando?, uns seis meses.

                                         * * * *

            Eu gostaria de ler um livro junto com vocês. Que é que acham? Vocês escolhem o livro, vamos comentando o que acontece na/durante a leitura. Olhares se cruzando sobre um texto. A propósito, me lembro de quando apareceu "Cem Anos de Solidão". Amigos se telefonavam, exclamativos, contando trechos do romance. Gabriel Garcia Marquez não conseguiu repetir a façanha do acicate, do aguilhão da prosa, em nenhuma outra novela. É um fenômeno que não rebenta anualmente feito caju e manga, não; pegou todos de surpresa. 

          Nem Borges, com um refinamento que, não obstante, consegue dar em poucas linhas uma pungência extraordinária, nem Rex Stout, com suas novelas policiais que sinto já ter lido na totalidade, pois gostaria de esquecê-las pra ler de novo, produziram tal pó-de-mico-no-salão como diz a marchinha de carnaval. Marchinha que não se referia ao texto de Gabo.   

           Pois, voltando: vocês podem sugerir um livro para que a gente leia? Ao mesmo tempo?

            Abraços, e, Brasília, até amanhã. Beijos.

Tom Zé

 

 

             Topam?

 



Escrito por Tom Zé às 16h20
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EXEGESE DE TÔ FICANDO ATOLADINHA

Olá, rebanho de vagabundos! Estou de volta de uma saudável excursão ao meu querido Nordeste. Bebi e comi fartamente daquela concepção cosmogônica lá instalada. Tenho material para processar durante um bom tempo. Enquanto estava viajando, escrevi "Exegese de Tô Ficando Atoladinha", porque num jornal do Rio se dizia que algumas músicas de 'Estudando a Bossa" foram influenciadas pelo funk carioca.

E por que não?

EXEGESE DE TÔ FICANDO ATOLADINHA,

META-REFRÃO MICROTONAL E PLURI-SEMIÓTICO

 

            3)  PLURI-SEMIÓTICO:

            O refrão de “Atoladinha” tem vários planos de significado:

            a) em termos semânticos, o significado léxico já registrado em dicionário, que abarca o nível denotativo;

            b) em termos pragmáticos, “Tô   Ficando Atoladinha” desencadeia um novo significado, agora ambientado em um ato sexual. É o chamado nível conotativo dos significados deflagrados pelo uso.

                                               * * * *

             Depois desse passeio pelo denota e pelo conota, o refrão foge dessas classificações e vai reverberar no sentido do tato. E o tato já é outro código de sinais.

                                               * * * *

             Além disso, cria um signo contundente, quando numa sociedade misógina e preconceituosa, faz uma mulher assumir o comando de um ato sexual e chamar para si o direito e a conclamação do prazer.

                                               * * * *            

           De acordo com C. S. Pierce, o fundador da Semiótica, o conjunto de signos “To Ficando Atoladinha”, dentro das 10 classificações compostas e combinatoriamente possíveis das tríades piercianas, forma um legi-signo dicente indicial.

            Considerando o contexto,  eu talvez preferisse um sin-signo dicente indicial, porque o lugar objetivo onde se dá o encharcamento é o vestíbulo vaginal e a metáfora lancinante é mais exatamente uma metonímia  – o tropo que estabelece a parte tomada pelo todo.

           

            Estou exagerando? Se o exagero passa por sua cabeça, convoco o testemunho da dra. Carmita Abdo, diretora do Departamento de Sexologia da USP. Em pesquisa divulgada em outubro de 2004 a  dra. Abdo revelou que, no próprio campus da USP, um dos bolsões mais civilizados do País, 68% das meninas de 15 a 25 anos revelaram não ter prazer no ato sexual. Alegaram que seus parceiros terminavam antes, não ligavam para o que acontecia com elas. e “com medo de parecerem depravadas ou prostitutas”, não tinham coragem de pedir mais, de pedir ao parceiro que as socorresse na frustração.

            2)

            Microtonal

            O canto microtonal era praticado pelos cristãos nas catacumbas de Roma, onde se reuniam os adeptos de uma religião católica ainda proibida no Império Romano. Depois da oficialização do credo, o papa Gregório, no início do século 7, proibiu a microtonalidade na Igreja e instituiu a escala diatônica, criando o cantochão ou canto gregoriano.

           Essa escala diatônica serviria de base para toda a música ocidental. Até hoje somos prisioneiros desse dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó, com seus sustenidos e bemóis, tanto na música erudita quanto na popular.

            Acontece que do ponto de vista da Física, entre um dó e um ré existem 9 comas, que se instituiu chamar quartos de tom e oitavos de tom.

            Vale a pena dizer que para um violinista o dó # é diferente do ré bemol. Chegaram a ser construídos na Europa instrumentos de teclado que tinham uma tecla para o dó # e outra para o ré bemol. Depois, no século 18, veio o temperamento, que unificou os dois acidentes.

             Muitos músicos e teóricos saíram a campo para dizer que não funcionaria, mas J. S. Bach tomou o partido da inovação. Para provar que dava certo escreveu o Cravo bem temperado.

            Desde então a prisão da escala diatônica temperada dominou a música ocidental popular e erudita.

             Agora defrontamo-nos com o inesperado.

             Há duas exceções: o compositor erudito italiano Giacinto Scelsi e o funk carioca com o MC Bola de Fogo. O primeiro, escrevendo peças microtonais para orquestra e este, escrevendo Tô ficando atoladinha.

             No caso de Atoladinha, trata-se de um achado muito simples. Na repetição obsessiva

                                  ficando atoladinha,

                                 ficando atoladinha ,

             a cantora não muda diatonicamente a nota musical: num crescendo insistente, vai subindo obsessivamente quartos de tom, como a própria excitação e aquecimento do assunto requer.

             1)

              Meta-refrão

              Ora,uma peça tão bem achada chama a atenção e põe em questão todos os refrões e toda a arte de compô-los.

               Portanto, quando se acusa o meu “Estudando a Bossa” de ser influenciado pelo funk carioca, não se trata de uma aberração: em aspectos mais profundos e em momentos de exceção, o funk tem laivos criativos tão altos como a bossa nova.

 

 



Escrito por Tom Zé às 12h08
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