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SEU PIROCA. BOAS PENADAS. LIMPIDEZ MÃO DUPLA.

           Esse negócio de 200 saias rodadas, Émerson, tem alguns detalhes: eu estava fraco na hora e não tive coragem de botar na música, mas em Irará seu Pedro na verdade é seu Piroca. Quer dizer Pedro Pequeno, é um apelido meio russo.

          Seu Piroca era encarregado, todo o ano, na festa da padroeira, das chamadas “festas populares”, que abrangiam a lavagem da igreja, até hoje feita na primeira sexta-feira de fevereiro, à tarde. Seu Pedro anualmente tirava dinheiro do bolso pra comprar todas as saias de chitão, aquele tecido em estampado bem vistoso, chega-brilha, como se diz na Bahia, abreviando “chega a brilhar”.

           Ele era também um homem de inteligência agudíssima, tinha respostas sensacionais, escolhidas no cesto da simplicidade e que acabavam soando mágicas.

          Começaram a dizer que a segunda mulher dele tinha tido uns entreveros amorosos com uma criatura de Irará. Boato pra lá, boato pra cá, um dia ele saiu à porta de sua venda e gritou para o comércio todo ficar sabendo: “Eu não quero saber mais de conversa sobre isso ou aquilo, Marocas tá em casa e vai ficar em casa. Não quero saber se ela subiu ou desceu, se fez ou não fez, se deu ou não deu. Quem manda nas minhas casas sou eu e ela fica lá.”

 

          Depois eu vou respondendo às outras pessoas que me escreveram.

 

         A idéia de autobiografia é boa, Pedro. Espero cuidar disso. Fica por conta do quando. Com a inclusão das penadas dos opinativos colaboradores blogueiros. Que também estarão lá quando o assunto for leituras conjuntas. É um assunto importante, e preciso trazer com mais freqüência mais gravetos para este fogo.

 

*** Eu ia escrever lenha e não gravetos, mas cada vez que vejo aqueles montes de toras em porta de pizzaria me doo  todo. São ossos e cabelos do planeta Terra partidos, cortados diariamente, incinerados, para preparar uma forma de comida. Ainda se gabam por escrito na porta: “feita em forno a lenha.” Com tanta tecnologia recente, tá mais do que na hora de optar por um progresso na feitura, não tem outro jeito não? ***

 

      Voltando: vamos alimentar o fogo da leitura, começando por mim. Logo trarei outro bom naco do livro de Tatit para nós todos. 

       Ele, a propósito, comentou: “Um blog que incentiva a leitura! Diretamente do livro para o blog!” – muito se admirando com as interessantes intervenções e observações de vocês.

        Está havendo um mimetismo, nos comentários de “O Século da Canção”: Tatit escreve com limpidez, devotado ao assunto – nem sempre autor se devota ao assunto, às vezes uma forma qualquer de exibicionismo se encarna no texto – e vocês têm se manifestado também com limpidez, recorrendo a exemplos factuais e com reflexões oportunas.

 

 

     



Escrito por Tom Zé às 10h46
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CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS: ONTEM E HOJE

CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS: ONTEM E HOJE

 

          Ontem

Vejam só, Émerson, Augusto, e os que nos acompanham em silêncio:

a distância confere uma perspectiva que o momento às vezes não tem.

Oferecimento

             E eu aqui, oferecendo herança a vocês, filhos que me lêem. Não imaginava encontrar legados e destinatários por meio de discos, deste disco.

            Quando gravei o “Correio...”, algumas pessoas que me cercavam falavam mal do dele. Esnobação, acho. Ou, sabe? Depois de “Estudando o Samba”, de me ocupar de situações urbanas em “Grande Liquidação”, de ganhar festival falando na maior capital da América Latina, acho que é o que é São Paulo, quem haveria de dizer que eu me voltaria para a origem rural? Que alguns chamam de caipira, na minha terra chamam de jeito tabaréu?

           Isso é não querer permitir que o trabalho musical seja um poliedro, que o catavento gire. Para alguns parece traição, pra onde é que esse cara vai? Ou se fala em “coerência”. Não vamos escavar tanto, deixemos para outra vez. Não deu para obedecer a essa restrição. Um homem é mais que.    

Quase hoje

              Anos depois, Jan, de Colônia, que trabalha em rádio na cidade e conhece alguma música brasileira e muita música internacional, se espantava com a “qualidade melódica” ou rítmica de certas faixas.

Ontem – Bença, Mãe!

            Na TV Cultura – São  Paulo – Fernando Faro fez um programa, um filme chamado “Bença Mãe”, mostrando nordestinos que não podiam ir para seus Estados na época do Natal.  Uma menina que viajaria sem a mãe ficou se despedindo aos gritos, na janela, enquanto o ônibus partia: “bença, mãe! bença, mãe!” Foi o título natural do filme.

           Na colheita de depoimentos, os entrevistados não tinham empatia com a entrevistadora, uma paulistana. Para tirá-la do aperto, eu, que estava presente aos diálogos, me ofereci para fazer uma das entrevistas. Acabei fazendo todas, pois as pessoas confiavam em mim, na nossa semelhança cultural.

            Durante as filmagens fiz as canções que depois foram para o disco. Eram rascunhos do que seriam depois. No estúdio melhorei um pouco as canções.

 

Em qualquer arte em que você entre

       poderá processar o grau de matemática ou sofisticação, o grau de engenho de que pessoalmente é capaz. Não quero me gabar, não se trata de gabolice. Falo de necessidade de rumo, de aspiração, de recursos. Ao lado disso, seria começar uma autobiografia dizendo que desde os 8 anos de idade não tive a menor vocação pra música. Só me interessei por ela aos 17 anos e nela entrei como quem pedia socorro àquele métier, ao bloco profissional. Em Irará havia alguns integrantes desse bloco profissional, alguns músicos. Olhando pra eles achava que, entre as pessoas em geral, eram bem gratificados pela afeição, pelo amor que recebiam de seus coevos, das pessoas que os rodeavam. Achei que podia ser bom pra mim, que poderia ter algum resultado. E comecei a me esforçar.

Era o que estava perto - Afinidade

       A música era uma possibilidade que estava mais à mão:  o violão, a opção pela cultura moçárabe da roça. E também senti afinidade e simpatia pela forma. Por isso escolhi música, fui atrás dela.

Desistência

        Acabei entrando no buraco do insucesso, houve o grande fracasso de não conseguir cantar pra namorada. Nesse dia, desisti de fazer música.

         Foi então que se estabeleceu no meu  inconsciente o projeto herético de processar/elaborar todos aqueles preceptores-babás da minha infância. (Demonstrei esses preceptores-babás num gráfico que juro que está aqui no blog, lá atrás.) Primeiro eu queria estabelecer um novo acordo tácito (Tatit é que gosta disso): desfazendo letras de música, fazendo antiletras. Eu achava as letras muito empoladas, identificadoras de um tipo de cantor que houvera imediatamente antes de mim.

No berro

         Eu convivia com eles mas não podia imitá-los. Achava que podia haver outra forma de canto diferente daquele que queria convencer o ouvinte pelo berro, por aquela gritaria.

         Comecei um projeto de fazer uma música que fosse capaz der esconder que eu não era cantor. Tanto que minha música, o eu músico Tom Zé no princípio só pôde fazer  retratos fotográficos de Irará e de seus personagens.

A moldura

         Depois compreendi que uma cidade grande como Salvador também poderia caber dentro dessa moldura. Fiz com os jornais da semana o painel musical chamado “Rampa Para o Fracasso” para um programa de televisão chamado “Escada Para o Sucesso”. O  título era um tipo de contraponto verbal. E eu já tentava aproveitar todos os elementos para compor uma música tátil. Eu não sabia que procurava a tatilidade, mas queria uma reação imediata.

Bê, os sentidos

         Falando em tatilidade, me lembro de Bê, cujo sentido privilegiado não é a audição, à diferença dos músicos. Talvez ela possa comentar alguma coisa, se quiser.

Rampa, TV, hoje seria chamado de performance

         Meus cálculos de imediatismo comunicativo na primeira apresentação na TV foram bem-sucedidos. McLuhan chama a TV de meio frio, portanto a tecnologia da época acaba colaborando com um projeto artístico; foi o que a então incipiente televisão fez comigo. Hoje tento manter essa intimidade, esse relacionamento íntimo com a atual TV, já bem diferente: faço o número do violão desmontado, rasgo roupa.

A Carta

         E vocês todos que estão falando da “Carta”, puxa, vocês precisam ver a representação cênica da “Carta”: é uma outra obra superposta a essa música.

         Me lembro da primeira representação da “Carta”. Foi em Caixas do Sul, para 40 pessoas sentadas numa associação de trabalhadores. Em vez de janela, a sala tinha um vitrô basculante,era um  lugar um tanto desusado para apresentações.

        A platéia começou um tipo de riso nervoso, algumas pessoas não se continham. Eu, assustado também, como elas, com minha própria invenção, fiquei com medo de mim e daquela risada nervosa, assustada.

        Só para esclarecer um pouco como é essa representação: a letra é platônica, de um lirismo seco. Mas, encenada, o violão faz papéis, se transforma: vira mulher, cavalo; minha camisa vira blusa e saia de moça. Cria-se um romantismo muito carnal, parece uma edição de “Playboy” contraposta à doçura do texto.

Lavagem da Igreja de Irará – engenharia genética

        Acho que a melhor música que fiz até hoje foi “Classe Operária”. Mas a “Lavagem da Igreja de Irará” foi a de complexidade matemática mais ousada. Porque eu pratiquei, com o folclore do meu tempo, uma espécie de engenharia genética avant  la lettre  Em 1959 não era difundido popularmente o desenvolvimento da engenharia genética; só vim a saber dele a partir de 68, no suplemento cultural do jornal “O Estado de São Paulo”.  

         Em 1960, sem nem imaginar o que estava fazendo, abri o código genético do folclore, que é uma espécie de receptáculo sagrado, religioso: abri e coloquei personagens vivos do cotidiano de Irará. Hoje muitos estão mortos, voltaram ao universo da religião. Abri o mito cristalizado e implantei os personagens: minha mãe de santo, dona Melânia, sinhá Inácia, Zé Tapera, que  soltava foguete em todas as festas populares -- enquanto a banda de barbeiros tocava Zé Zé Zé Popô.

              Estou dando esses elementos com os quais fiz o disco. Metade de Irará, metade da TV Cultura, eu lá na estação socorrendo a entrevistadora, os passageiros do Brás não confiavam no sotaque da moça.

         



Escrito por Tom Zé às 17h49
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