TATIT: AFUNDANDO NA ENCRENCA
Mergulhando na cultura de massa: nós e a música brasileira. Nas páginas de "O Século da Canção" que leremos juntos agora, há dificuldades até morais. Nada de novo, pois quem fala em comércio e mercado fala quase sempre em dificuldade moral. Desde Aristóteles se sabia disso, quem sou eu pra lhe dizer - a ele, Aristóteles - que deixe disso? Mas veja, quanto se esperneou à chegada do axé, das duplas sertanejas. Exercíamos uma pequena liberdade de escolha, que era a de substituir, por eles, as opções de grande público até então existentes; em boa parte, norte-americanas, estrangeiras. Vamos à encrenca, botar a lanterna em cima. No caminho, na leitura pessoal de vocês, haverá muitos atalhos que acharão importantes, que os chamarão para a conversa tanto quanto estes tópicos cá de baixo me chamaram. É a ótica pessoal, exerçam. Pgs. 91 e/93 – Tatit fala de assimilação – processo característico do tropicalismo, que podemos chamar de inclusivo, e de triagem – processo demarcativo, que nos remete à bossa nova. pg. 93 – primeira triagem foi técnica; chegaram ao Brasil no começo do século 20 os primeiros aparelhos de gravação. Músicos da época criavam melodias/letras próprias para diversões noturnas, esquecidas na próxima brincadeira e que “tinham o ... destino da linguagem oral [diária], desapareciam...” (Quanto de insólito ou que gostaríamos de ter conhecido perdeu-se, pessoal, nessa evanescência, música que se esfumava, cumprido seu papel de momento efêmero.) Para os aparelhos de gravação recém-chegados os empresários testavam uma forma musical adequada e os artistas queriam registrar suas criações ... [e ganhar com isso]. Sonoridades que não se adaptavam à nova técnica foram eliminadas; o samba partido-alto foi o piloto de prova desses registros. Começava a conformar-se a canção popular com as características de hoje. pg. 97 – segunda triagem: abastecer o rádio com canções de carnaval e de meio-de-ano. p. 98 – letras refletem o sentimento de falta. p. 99 – terceira triagem, de ordem estética – a passionalidade do samba-canção cedeu a Tom Jobim e a João Gilberto. Eliminação de excessos, numa precisão que recusa até a “complicação inútil” de improvisos jazzísticos. p. 102 – Roberto Carlos e o iê-iê-iê brasileiro sempre estiveram ... mais próximos de João Gilberto do que a turma que deixou a bossa nova para criar a sigla MPB. ... linha direta entre o canto mais refinado (JGilberto) e sua voz mais popular (RCarlos). 103 – hipertriagem: Vandré,[promovendo] que a música popular [daquela fase] fosse unicamente a canção engajada, de preferência de sua autoria e criação interpretativa. Revide tropicalista: sem que os tropicalistas nutrissem nenhuma simpatia pelos usurpadores do poder político ... a atitude de Vandré foi munição para que se opusessem à música de protesto e a seu espírito de exclusão... [Para o] tropicalismo a canção brasileira é formada por todas as dicções ... vulgares ou elitizadas, do passado ou do momento – [sem] exclusão. [Com isto lia-se a] equivalência das ambições da música engajada e dos métodos excludentes dos generais. p. 104 - quarta triagem – música sertaneja adaptada pelas gravadoras ao circuito de rádio e TV, ocupando o segmento passional, de música “de meio-de-ano”; p/ espetáculo de tv que rivalizasse com cantores-dançarinos americanos, o espaço foi ocupado pela música axé, pelo pagode. O critério foi o consumo explícito, orientado por empresários e acordos com veículos de divulgação. Impressionante crescimento de consumidores de música no universo popular. Eliminação de coplexidade harmônica ou rítmica. Substituição da música americana comercial pela brasileira. TV programando encenações de grupos de axé e pagode. Tatit encerra o capítulo na pg. 110: ... “Nada como uma boa globalização para ativar as forças locais. As regiões, em suas diferentes escalas, vinham dando de goleada.”
Escrito por Tom Zé às 12h58
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