É isso aí, Tom Zé, sua leitura fisgou a linha mestra do texto. Não há o que acrescentar. Lanço apenas algumas paráfrases e alguns exemplos que poderiam eventualmente justificar a abordagem.
De todas as triagens, a da bossa nova é a que mais tem interesse para os artistas e criadores, já que introduz uma seleção (e eliminação) estética numa fase em que a canção já tinha sua linguagem consolidada. É ela que volta de quando em quando para aparar os excessos (de paixão, de volume, de grandiloquência etc.) e retomar a clareza dos recursos essenciais da canção, normalmente localizados nos pontos de encontro da melodia com a letra.
Esse capítulo 3 toca num aspecto polêmico que será desenvolvido no último segmento do livro: as canções de massa, mesmo as desprezadas pela estética vigente, exercem funções importantes na valorização das demais faixas de criação da música brasileira. Elas não concorrem com as “canções de autor”, geralmente bem mais elaboradas. Esse espaço de produção para “as massas” tem suas próprias leis de mercado, muitas vezes indecifráveis até por seus agentes fomentadores. São canções para se ouvir de longe, em grandes ambientes (estádios, ginásios, festas), e causar envolvimentos coletivos (danças, gestos, euforia) que em geral dispensam sutilezas ou escutas atentas.
Quando as canções estrangeiras (em geral, as norte-americanas) dominam esse espaço nos nossos ouvidos, a própria ideia de sucesso parece então atrelar-se à expressão “em inglês”. Houve época em que nossos jovens roqueiros tinham vergonha de cantar em português pois que nesse idioma já estariam condenados ao fracasso. Essa virada de mesa do trio “pagode-axé-sertanejo” no final do século foi decisiva, a meu ver, para a autoconfiança do compositor brasileiro. Nossa música passou a ocupar todas as faixas de consumo, incluindo aquelas tradicionalmente reservadas aos gringos. Isso ajudou a despertar o ímpeto criativo de diversos roqueiros (como, por exemplo, Herbert Vianna, Renato Russo, Frejat, Cazuza etc) e de jovens em geral que gostariam de compor em sua própria língua (só se produz com espontaneidade na língua materna) e, no entanto, só tinham como referência de grande êxito a produção anglofônica. A canção norte-americana, diga-se de passagem, é extraordinária e sua influência é muito bem-vinda por aqui. O que se critica é a influência hegemônica simplesmente por contar com condições financeiras privilegiadas.
O sucesso da música brasileira na faixa de grande vendagem (critério que este século praticamente demoliu pelas ações on-line) mexeu com todas as demais faixas de criação, além de ampliar consideravelmente o universo de estilos dos cancionistas brasileiros. O fenômeno da reabilitação de autores esquecidos e de profissionalização de compositores e músicos que outrora não teriam espaço, tudo ao longo dos anos 90, também constitui sinal da hegemonia brasileira. Creio que essa visão (isso está desenvolvido no último capítulo do livro) amplia o enfoque costumeiro que avalia o papel pontual das canções apenas por sua “qualidade”, “engajamento” ou “poder de inovação” e deixa de ver as contribuições de seu papel “extenso”, ou seja, aquele que se revela ao longo de períodos mais longos.
Quem viveu a jovem guarda lembra-se bem de que havia um consenso em relação às canções criadas por aqueles jovens, a começar de Roberto Carlos: eram chuvas de verão que se extinguiriam assim que exaurisse o programa da Record. Hoje são regravadas e estudadas como clássicos da nossa produção. Considerar o “longo prazo” imbutido nesses fenômenos pode apurar os critérios de avaliação imediata.
Obrigado a você e a todos os blogueiros por fazerem vibrar os conteúdos deste e de outros livros que, impressos em papel, são candidatos a “letra-morta”.
Abraços a todos
Luiz Tatit