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Blog do Tom Zé


CARTA AO CENSOR

Olá, caros coautores deste Rebanho de Vagabundos!

A Carta ao Censor que vocês leem abaixo será publicada no livro que comemora os 30 anos da Cooperativa Paulista de Teatro. Quando eles me pediram para republicá-la - saiu em 1987, 11 de novembro, no Caderno 2 do Estadão - quando tantos que leem agora não tinham aterrissado neste mundo - li de novo, esquecido dela que estava. É passado. Não é passado, como A comédia humana e Katherine Mansfield - estou com ela na cabeça há uns dias - nunca serão passado. Essa Carta está na veia, aqui, presente,  mas o antibiótico de outras conveniências históricas fez efeito, arre!

Divido com vocês e agradeço a  Cooperativa Paulista de Teatro, que permitiu que voltasse a lembrança desta que foi uma ginástica vital, verbal,  dessas que influem na saúde e nas decisões que é preciso tomar em certas ocasiões:

Carta ao Censor

Ditadura, democracia, parlamentarismo...

Que nome daremos a nossa escravidão?

 Prezado

 Eu não gosto do tipo de rapazinho insidioso que se esconde na redação de um jornal para valentias que não teria coragem de dizer ao senhor aí, na sua sala da censura, na Polícia Federal. Não pratico essa coragem covarde. Por isso minha argumentação é respeitosa e leal..

Não espero, tampouco, que juntos passemos a praticar os papéis de caça e caçador. Talvez até seu trabalho, assim, criasse para minha obra uma evidência maior, mas tal e tanta não me tentam. Não; quero somente levar ao senhor algumas considerações justas e indignadas.

Senhor Censor:

O ar que cada geração respira, em certa idade, é a REBELDIA. Não o digo eu. Veja nas religiões, veja na Teosofia, veja nas cosmogonias.

O senhor mesmo, por exemplo, para se cristalizar como Ser, precisou dessa rebeldia. E ela lhe foi concedida, tanto que sua semente cresceu, galgou espaço, e agora exerce uma função importante. Mas, negando a seu filho a graxa com que ele vai metabolizar sua rebeldia arquetípica, esse filho não chegará nem ao que o senhor chegou. Portanto, o senhor está minando a estrada por onde ele vai passar.

 GRANDE-PAI-PÚBLICO

 Mas isto é pouco, isto é uma amostra. A verdadeira calamidade é que a sua função de censor o transforma num Grande-Pai-Público de toda uma geração, cuja estrada fica cheia de mata-burros, cujas células não podem se oxigenar, cuja eletricidade não encontra fios, cujo edifício não encontra solo.

Cada homem contém a micro-história do Homem, senhor censor. E em cada homem se repete a sequência tese, antítese e solução.

Neste mundo moderno que abandonou os contos de fada, nós, os cantores e poetas, temos que fazer de nossas peças crimes. Uma canção tem que ser um crime. Um crime, no mínimo, para que a violência congênita do ser humano “trabalhe” no mito; para que esse crime no mito elabore sem necessitar do consentimento. O senhor sabe, senhor censor? Aristóteles também pensava assim, e os gregos davam tanta importância a isso que usavam a Tragédia para “aliviar” as gerações. Já nós, aqui e agora, precisávamos daquela canção censurada para fazer catarse. Aquelas canções que o senhor me negou cantar vão fazer falta ao seu filho. Tanto ao seu filho pessoal e querido, quanto ao seu filho público e multiplicado, seu filho-geração.

O senhor vê o que acontece no País agora, senhor censor?

 ALIANÇA FRENTE AMPLA

 Acho que nem eu nem o senhor estamos satisfeitos. Eu, por exemplo, pergunto: “e agora, poder civil, a quem poderei culpar?” Talvez o senhor tenha palavras diferentes para dizê-lo, mas ambos estamos indignados. Então, senhor censor, procurando em mim, no âmago do meu ser, uma atitude patriótica, um ato de amor pelo País, fiz o quê? Fiz aquelas canções que o senhor proibiu. Donde se vê que nós dois estamos em acordo e desacordo. Sim, pois, embora o senhor não possa talvez dizê-lo publicamente, ambos estamos decepcionados com a incapacidade e a corrupção que nos gere. Assim, estamos acordes quanto à doença, mas apartados quanto ao médico e à práxis.

Por isto lhe peço, senhor censor, que, irmanados nesse desamparo nosso, desamparo que verga nossas diferenças pessoais, tentemos soletrar um nome ou um título. Um rótulo que procuraremos nos dicionários, gírias e neologismos... Ditadura, democracia, parlamentarismo, que nome daremos a nossa escravidão comum?

Respeitosamente, seu criado, TOM ZÉ.[1][1]

  



Escrito por Tom Zé às 15h20
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Para Michael

29/06/2009

-

11h14

Leia "Amado Michael", poesia de Tom Zé em homenagem a Michael Jackson

da Folha Online

O cantor Tom Zé fez uma poesia em homenagem a Michael Jackson, morto na última quinta-feira (25) após uma parada cardíaca.

Leia a íntegra da poesia de "Amado Michael".

AMADO MICHAEL
(Tom Zé)

Negro da luz que desbota branco
Tanto talento tormento tanto
Tanta afronta de pouca monta.

Eia! virtudes em farta ceia
Todo encanto que pode o canto
Toda fiança que adoça a dança.

Que deus nos furta vida tão curta?
Mundo lamenta: ele mal cinquenta!
A ninguém ilude essa bruxa rude.
Paroxismo desse Narciso
Que achou desgosto no próprio rosto
E apedrejou-se com faca e foice.

Avança a rua (uma dor que dança)
E em seus telhados mandibulados
Requebra os hinos do dançarino.
Niños, rapazes, se sentem azes
Herdeiros todos e seus parceiros
Revelam parque, porto e favela.

II

Da Grécia três te trouxeram Graças
Arcas repletas de belas artes
Arcas que deram ciúme às Parcas.

Que luz trarias tu, mitologia,
Para um tal desatino de destino
Que o espandongado toma por fado?

Porque o povo grego disse que
Se a hybris o herói consigo quis,
Se condiz ao lado dela ser feliz
Ele mesmo será pão e maldição
Enquanto gera para os olhos de Megera



Escrito por Tom Zé às 11h48
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