Fotoxop/Protuls/Rubens, Pieter Paul; música de bom gosto e sertaneja
O livro de Tatit está cada vez mais próximo do momento presente, em seus arrazoados. Vamos lá, rebanho de vagabundos, eu no meio, me incluo:
O século da canção, pgs. 167 em diante 167 - ... a urgência, cada vez mais acentuada, de adaptação da voz às novas tecnologias oferece alguma pista sobre a consolidação do gênero [samba]. Isso aconteceu a partir dos anos 1920. Há quase um século. Hoje as novas tecnologias adaptam a voz, corrigem. Tal como o fotoxop, que joga fora cicatrizes e enxúndias, convertendo-as em nuances de cor. Fica tudo bonito-padrão. Rubens (Pieter Pauls), o flamengo, não dava bola pra fotoxop; sendo justo, o padrão da época permitia enxúndias, vez por outra. Na voz, não sei se alguém é homem, hoje, pra não apagar certas peculiaridades/imperfeições, deixando-as à flor do som. E se forem singularidades? 168/9 – O modelo de composição ideal era aquele que apresentasse maior rendimento qualitativo e quantitativo para seduzir os cantores e prover o mercado aberto pelas rádios. 169 – [com mais] encomendas, a partir de 1928, os compositores tiveram de desenvolver ... modelo de rápida transferência de qualquer assunto para o formato da canção. Claro que há assuntos mais rebeldes, pelo menos para os compositores de classe média. Depuramos narrativas brutas; depois de uma verdadeira lapidação as linguagens ficam aptas para consumo. No caso de certos gêneros que Tatit chama de mais passionais, algumas situações mais sexuadas, com duplo sentido ou não, já são aceitas. São os costumes, os mores. Pecisam ser descritos ou mencionados. Mas o bom gosto refuga. Coincidência engraçada: tanto as músicas para a classe média, como as composições sertanejas se movem num vocabulário que não admite muitas modificações. É uma horizontalidade de repertório. Não conheço muito, não ouço tanto. Falo do pouco que ouvi. 170 – “Conversa de botequim (Vadico e Noel Rosa)”... já estaria ... mais identificada com o modo de dizer do que com o gênero: As características fixas do samba-samba: olhai, Émerson, é com você. Na pág. 177 o s-s é chamado de medula cancional por Tatit; dele se irradiaram outras vértebras de composição. Na 177 vemos que o s-s, que não apresentava intervenções modificadoras de estilo, sofre alterações. No samba-samba não existia ainda o monólogo-diante-do-outro, uma fala radiofônica, meio PRK-30, como foram Conversa de botequim, Com que roupa? Aí, hein? As próprias interrogações no título das duas últimas acentuam o caráter de brincadeira com o interlocutor, de arrelia jocosa. Delicioso humor carioca, radiofônico, daquele Rio de Janeiro de então, vitrine da moda. A musicalidade urbana tomando o jocoso como recurso. Talvez ainda seja, com menos força; hoje é mercado difundido pelas novelas cariocas mas se a força inventiva fosse a mesma do passado, vocês veriam o que é federação. Lato senso. 173 – a musicalização da oralidade brasileira, iniciada na era colonial 274 – O samba foi ... a solução brasileira para uma fecunda manifestação do modo de dizer cancional que sustentou nossa produção por pelo menos três décadas.
Abraço, Tom Zé
Escrito por Tom Zé às 10h54
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