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TATIT/CRIS, DISCUSSÃO CURTA, GAROTA DE IPANEMA

Capítulo O nó do século, bossa nova e tropicalismo

Pra quem chegou agora, estamos lendo juntos o livro de Luiz Tatit O século da canção, chegando à página 177. Vamos lá; o texto de Luiz Tatit figura em itálico, palpites meus, em letra comum.

Espero que Cris já tenha se recuperado da análise de "Garota de Ipanema", com seu humor de peixe-serra, que corta mas mergulha bem.

 

177 – Quem revelou ao país a existência dessa medula cancional que tentamos representar no esquema do capítulo anterior foi João Gilberto ... [que incluiu] no repertório ... de seus 3 primeiros lps ... canções ... antigas, ... quase todas ... da vertente samba-samba. ... Morena

boca de ouro, Bolinha de papel, Rosa morena, Samba da minha terra e Saudade da Bahia.

 

178 – Tom Jobim, mais centrado na composição de um novo repertório para a música brasileira ... também incluiu em seu projeto musical a revitalização ... do samba-samba.

... compôs  Só danço samba, Garota de Ipanema, Só tinha de ser com você ... [cujos] procedimentos de interação entre melodia e letra lembram ... os dos sambistas da era de ouro ...

178 – A diferença estava sobretudo na concepção harmônica.

Começou a ser notada a diferença entre samba quadrado, rítmica e harmonicamente conhecido, e o samba que importava o cool jazz, a que Tatit faz referência. Estudantes de piano sofriam porque o “de ouvido” ficou mais difícil, os códigos harmônicos ganharam complexidade do dia pra noite.  

 

179 – Uma coisa é a bossa nova como movimento musical – caracterizado como intervenção “intensa” – que dourou por volta de cinco anos (de 1958 a 1963), criou um estilo de canção, um estilo de artista e até um modo de ser que virou marca nacional de civilidade ...

         Outra coisa é a bossa nova “extensa” que se propagou pelas décadas seguintes, atravessou o milênio e que tem por objetivo nada menos que a construção da “canção absoluta”, aquela que traz dentro de si um pouco de todas as outras compostas no país.

 

 

179 - ... ao primeiro gênero pertencem Tom Jobim e João Gilberto ... Vinícius de Moraes e toda a turma da zona sul carioca, de Carlos Lyra a Nara Leão, ... Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sérgio Ricardo, Silvinha Teles, Chico Feitosa, Marcos Valle ...  [e os] precursores Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, ... Os Cariocas ...

 

179 – bossa nova extensa... : apenas Tom Jobim e João Gilberto. [por extensa referimo-nos] ao projeto de depuração de nossa música, ... triagem estética que se tornou modelo de concisão, eliminação dos excessos, economia de recursos e rendimento artístico.

 

181 - ... ainda é pouco avaliada a história da bossa nova extensa. Tom Jobim e João Gilberto ... mantiveram incólume o projeto inicial de economia e depuração sonora ...

 

IDENTIDADE E ALTERIDADE

 

 182 - Todo tema está inserido numa sequência melódica à qual se integra por identidade e alteridade ao mesmo tempo. No primeiro caso, todo tema contém traços dos temas precedentes e subseqüentes ... ele é um pouco do que já foi e um pouco do que será. No segundo caso,m todo tema possui uma porção maior ou menor de singularidade que o distingue e o define como um “outro” na corrente melódica. 

 

    Recorrendo ao grosso modo, valemo-nos de Tatit, que fala em involução melódica no caso do predomínio de identidades, na identidade temos mais permanência.  “... um refrão só se define ... quando a canção evolui para uma outra parte e promove ... uma intensa espera pelo seu retorno” (pág. 183)

 

Pg 184 – Nas canções desaceleradas, da vertente do samba-canção, predominam os traços de aleridade. ... alongamento de durações ... expensão do percurso melódico... [que] diluem ... a constituição das células temáticas ou... as orienta para outros (alter) lugares sonoros...[num] sentido de busca que o outro gênero de canções não possui.

 

Pg. 190 – Luiz está analisando identidade/alteridade em Garota de Ipanema.

               Creio ser a segunda vez em todo o livro, até agora, em que Tatit faz considerações que, embora se liguem ao texto, o levam para fora dele.

                Diz que uma identidade integral (hipotética) entre sujeito/objeto garantiria plenitude, mas impediriam as tensões que empurram o sujeito para suas metas – para fora.

191 – a identidade (aqui na canção) manifesta-se nos vínculos de atração e desejam... [definindo] entre ambos uma “união a distância”. ... esperança de encontro possível ... [e] distanciamento espacial.

               Os discretos desdobramentos melódicos [dos] primeiros sementos constituem os signosmusicais dessa separação entre os personagens.  Isto é, entre a garota e aquele que a olha, por quem escreve uma canção.

                Cris, uma correspondente que dá às suas contribuições entusiasmo e impaciência, leu a análise da “Garota” antes de nós e protestou. Aí me lembro de um religioso quando ele resiste ao cientista que disseca a flor para estudá-la. Para esse religioso, flor é perfume e cor, não análise. Ele reprova a divisão atômica praticada pelo cientista.

               Para Cris, seria como se a canção não fosse mais aquela que ouvimos desde sempre, depois que Tatit lhe comenta a feitura, minuciosamente, em termos de linguagem musical.

                São visões da mesma canção, do mesmo craque Jobim. Estudei alguns anos na Universidade de Música da Bahia, como vocês sabem. Eu já tinha o vezo da estrutura, da observação do “como” uma obra é feita. Hoje, lendo um conto de Katherine Mansfield, a mestria da escritora, sua solução da feitura do conto, me impressionam tanto quanto as delicadezas descritas, que põem leitores no poço ou no céu, escolham, da emoção.

           

              Deixemos Cris, KMansfield e voltemos a Tatit: Que conclui o segmento da “Garota” afirmando que Jobim pôs nela os componentes temáticos, passionais e figurativos dos cancionistas brasileiros do século 20. Preparando o terreno para o desenlace do século. O próximo assunto é o Tropicalismo.

 

 



Escrito por Tom Zé às 09h39
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Para a moça que escreveu

   Para Karen Antunes, que deve querer distribuir ou lançar música nos Estados Unidos: na ocasião eu soube da intenção, não achamos que haveria muita possibilidade. Antes de tudo, eu não sou senhor de nada. Por favor, me chame de Tom Zé, Karen Antunes.

  Nos Estados Unidos, a Luaka Bop, selo de David Byrne, tem alguns cds meus, faz um excelente trabalho e lançará, "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza", ainda este ano, possivelmente, aí no seu país, licenciada pela gravadora brasileira que lançou o disco. De meu, tenho um cd "Danç-Êh-Sá", que poderia ser distribuído. Não tenho tempo para lidar pessoalmente com assunto tão difícil. Minha produção trabalha como uma junta de bois para dar conta de todos os recados por aqui. Agradeço sua consulta, seu interesse pelo trabalho. Um abraço, obrigado.



Escrito por Tom Zé às 09h15
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