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PAI TROTSKY

Marina Mara

escreveu este texto contando que sou filho de Leon Trotsky e de Frida Kahlo. Essa ascendência clareia, Marina, muitas questões e encrencas experimentadas na infância e na adolescência. Ter sabido antes teria desatado uma maçaroca de nós. 
Marina foi a um show que fiz em Brasília e escreveu minha origem biográfica com uma capacidade rara. O atual caminho de busca do individualismo por parte dos escritores dá resultados dignos de nota, mas é comum que não se afastem muito de um eixo pessoal que  fecha asas e restringe os passos. Com as exceções literárias que os leitores conhecem, por certo. Marina é de uma outra estirpe, ela voa, distancia-se e entrega um texto rico ao leitor. É prazeroso lê-la, ela tem inteligência. Vamos lá:

O filho brasileiro de Frida e Trotsky                

Coyoacán – México, fevereiro de 1935. O casal de pintores mexicanos Frida Khalo e Diego Rivera se separa, novamente; Frida havia descoberto o romance que Diego mantinha com sua irmã mais nova, Cristina Khalo. Mesmo amando-o mais que a sua própria pele, Frida, que havia perdoado várias traições do marido, não suportou sua falta de lealdade e entrou em profunda depressão. Diego então muda-se para um apartamento na Cidade do México e Frida continua na Casa Azul, sentindo no peito dor de amor enterrado vivo.

Nessa época, exilado e correndo risco de morte, chega ao México Leon Trotsky, o ex-líder Bolchevique o qual Stalin perseguia mundo a fora. E não era por saudade. Trotsky era amigo de Diego Rivera, que havia oferecido sua casa como esconderijo por quanto tempo fosse necessário. Ao chegar a Coyoacán era quase madrugada e Trotsky ainda não sabia sobre o rompimento do casal, por isso foi pedir abrigo na Casa Azul. Mesmo sem a presença de Diego, Frida insiste em acolher Trotsky – por quem dedicava grande admiração intelectual. Se inteligência é afrodisíaco, imagina então somada a um bom vinho e a uma bela dor de cotovelo. Não deu outra, Frida e Trotsky se amaram até o dia amanhecer. Porém, um detalhe que não aparece em nenhuma biografia é o fato de que Frida engravidou de Trotsky naquela noite e o filho do casal, por questões de segurança, foi mandado para o Brasil, onde reside até os dias atuais.

Logo nos primeiros meses do menino, Trotsky se muda para a casa de Frida, já reconciliada com Rivera, para ajudá-la na educação daquele que acreditavam ser algum Messias; afinal uma sucessão de ironias fazia do bebê um líder perfeito, pois era a materialização da controvérsia do mundo. Batizado como Messias Khalo Y Leon, tinha avós maternos alemães e os paternos eram judeus. Pai Ucraniano e mãe latina. Além disso, ter um filho era o sonho Frida, que havia quase desistido da maternidade após diversas tentativas frustradas com Diego – era quase um milagre.

O Messias era tudo para Frida, por isso, temendo que Stalin usasse o bebê para vingar-se de Trotsky, os pais mantiveram seu nascimento em segredo. Então, o futuro líder da controvérsia humana seguiu viagem com um amigo do casal para a cidade de Irará, na Bahia, levando consigo uma boa quantia em dinheiro para garantir sua educação. Frida e Trotsky sabiam que provavelmente não veriam mais o filho e que porém não passariam um dia sequer sem pensar nele. O amigo que ajudou a salvar o bebê era o escritor Jorge Amado que, pouco tempo após entregá-lo a tal família, foi preso por participação em movimentos comunistas.

Para justificar a grande quantia em dinheiro, os novos pais do menino disseram ter tirado a sorte grande na loteria e, por recomendação dos pais biológicos, trocaram seu nome. O Messias então passou a se chamar Antônio José Santana Martins, que tem uma inegável semelhança física e intelectual com seus pais. Antônio nunca soube de sua origem – até a publicação deste texto -, porém ao ler entenderá por que nunca conseguiu decidir-se entre o ativismo político e a arte. Dúvida essa que o levou a criar um genuíno ativismo-político-musical e a mudar de nome mais uma vez. O menino a partir de então ficou conhecido por Tom Zé, um dos artistas mais interessantes de seu tempo.




Escrito por Tom Zé às 11h53
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